quarta-feira, novembro 27, 2013

Quando minha sapiência ou cagada valeram três livros a meu sogro











Vinha eu, naquele tempo, muito envolvido com Albert Camus e Sartre. Lia e relia a obra de Camus em alemão. Era um exercício e tanto. Comecei por Die Pest, me empolguei, passei adiante com Der Fremde (O Estrangeiro) que é um dos dois personagens dessa inglória farsa que se constrói adiante, que é real. Fui ler Der Erste Mensch (O Primeiro Homem), Der Fall (A Queda), Verteidgung der Freiheit e etc... Li, li, li. Empolguei-me mais.

Meu sogro é cego, morava um andar acima de nós, sua descida da escadaria era quase que o prenúncio de trovões e corridas de cavalos em alguma caixa esquecida de trilhas sonoras antigas. Ele descia aquelas escadas com a saúde dos cegos. Quase que era um escorregar. Quase que ele sobrevoava rasteiramente as quinas dos degraus. Meu medo que ele caísse era enorme. Não, ele nunca caiu.

Eis que num dia daqueles comuns, em comum descida troteada e rapidíssima, ele me bate à porta, esbaforido e vermelho como só um alemão pode se apresentar. Estava sem voz, emocionado e por um simples motivo. A rádio que ele ouvia estava premiando com três livros o primeiro que enviasse por email o nome do escritor “Francês” que nasceu no norte da África e o nome de um livro que ele tinha escrito e que a pista seria o som que iria se ouvir a seguir.
Isto tudo foi dito num jorro, e que ele não tinha idéia de quem era o escritor e o livro. Foi dito a mim rapidamente, exaltado e em alemão. Eu estava acabando de acordar. Não entendia o motivo daquela pressa, era a pressa que só um alemão podia ter, pois, eles, os alemães, nunca têm pressa.

Moment, ein Moment bitte, was soll ich dir erraten? Pedi um momentinho e perguntei perplexo o que tinha que adivinhar. Com calma, por favor. Ele repetiu e fez um ruído, tentando copiar o som que tinha escutado no rádio, o que deveria ser sons de ondas numa praia e um disparo. Entendi. Eu tinha que, do nada descobrir o nome dum escritor que nasceu no norte da África e ainda por cima o nome de uma obra sua cuja pista era o som de ondas no mar e um tiro. E rapidamente.

Para mim, naquele momento, não havia nada, mas, absolutamente nada mais fácil que aquela adivinhação. Fiz uma horinha conveniente, uma inútil cara de sábio, pois ele não podia ver-me o rosto e com a voz mais próxima que eu imaginava ser a de Sherlock Holmes, respondi quase que citando a famosa frase a Watson, que nem existia de fato “elementar meu caro sogro”, o escritor se chama ALBERT CAMUS, e o livro não pode ser outro que não DER FREMDE (O Estrangeiro). Bist du sicher? Perguntou-me se eu tinha certeza, respondi-lhe que maior não poderia haver. Agradeceu e subiu saltitante a escadaria. Dali uma semana recebeu seus livros em casa. O gajo não me ofereceu nenhum.

sexta-feira, novembro 22, 2013

O Quadro

Um texto de Sara, minha filha mais velha e seus quinze anos. Era meu presente de aniversário




Oldhamstocks - Village Green & Schoolhouse (Summer 1956)



Por óbvios motivos, assim como todo homem, meu pai tinha como sonho construir uma casa. E assim ele o fez.

Construiu uma casa grande, cheia de coisas, animais e sorrisos. Cheia até certo ponto. Dentro da casa havia um espaço vazio. Lá estava ela, na sala, a bela parede bordô e texturizada, feita exclusivamente para ser enfeitada com um quadro.

Sim, um quadro.

Uma casa grande, com uma sala cheia, porém uma parede vazia. Uma parede cujo propósito era segurar um quadro.
Quadro esse, aliás, com o retrato de meu tataravô, pintado na Espanha em 1800 e tantos por um conhecido pintor.

Um quadro cujo destino é incerto,
que hoje anda com não sei quem, 
enrolado não sei onde,
com não sei quanto de sua magnificência perdida.

E lá continua ela. A parede bordô e texturizada, linda pra quem vê, porém vazia. E assim sempre será. Um homem feito, com uma casa grande, uma sala cheia e uma parede vazia.


Sara

sábado, novembro 09, 2013

Brilhante dissertação sobre a inocência masculina

Nosso blog traz um comentário enxuto sobre a dissertação brilhante da bióloga Marise Blanc acerca da inocência e da ingenuidade masculinas.












     Remontando ao mais distante passado, a cientista M. Blanc da renomada Fundação Científica de Biologia e Presságios, vê na herança feminina genética a inferioridade masculina em relação ao modo vivencial e de deparação com a realidade e suas atribuições práticas cotidianas.
     A cientista acusa a inconsistência e inexatidão do cromossomo Y na divulgação de informações e mapeamento genético, o que torna o humano de sexo masculino desprovido de certas atribuições relativas ao enfrentamento da realidade e incapaz de lidar com situações reais e importantes na cadeia de relações ao longo de sua vida útil. E isso começa a se despontar já na infância, quando o menino começa a “ficar” nitidamente atrás de seu oponente de sexo feminino. Falta, portanto, na concepção de Blanc, a força necessária, no cromossomo Y, para disseminar por gerações e gerações o alelo responsável pela realidade e sua percepção.
     Já, no caso feminino, a disseminação hereditária genética é dada pelo DNA mitocondrial, que, muito mais efetivo, mantém com rigor as informações que serão disseminadas a posteriori. A mitocôndria (corpúsculo no interior da célula), por ter tido antes vida livre, fora desta, tem uma relação muito mais eloquente com a realidade e a vida em si, mesmo por que, essa, tem em seu remoto passado a inusitada honra de provir de bactérias. O que, logicamente, é uma vantagem genética.
     A mensagem disseminada do DNA mitocondrial só pode ser transmitida pelo lado feminino e raros são os espécimes masculinos que aproveitam amplamente a mensagem genética provinda da mãe, já que, no espécime masculino o centro de absorção das mensagens geneticamente transmitidas se prove de um filtro que impossibilita a contaminação de mensagens decorrentes de padrões externos, ou seja, exógenas.
     Ao todo, a proposta da cientista é deixar claro que, a ingenuidade e inocência masculinas são frutos de um grande complexo de auto defesa situado em regiões subsetorias na cadeia evolutiva e determina, com este suposto déficit, a vantagem de procriação, já que o torna mais apto a assimilação, ao aceitamento e a afeição em relação às mais diversas situações de paternidade e assim, de perpetuação genética.


sábado, abril 20, 2013









ao ré com sétima aumentado
seguia-se o si menor com sétima
e baixava-se o ânimo um mi menor feio
dava-se o encontro não de olhos, os
braços se cruzavam,
era bom, entre mesas chiques
luzes sombrias e brilhos incompatíveis.

como que um público olhasse
aquele momento privado, e olhava!
dois rotos naufragando numa grande
sala de estar, de sentir, de ser, de definir.

um suor nas pálpebras, um descanso
de jornada longa.
um reencontro de almas.
uma flor branca roubada na passagem.
um ânimo nos olhos da amada, uma
lágrima. Que não veio.
flor no cabelo, agás e us sincronizados
exclamativos, num silêncio de glória.

interjeição e fotos








Quando as filhas fazem 15 e 11 anos
Um céu de fogo da janela do quarto de cima
Um cestinho de frutas colhidas no quintal
Manga, abacate, maracujá, goiaba, limão e quincan
umas flores lindas que têm ao fundo
um joelho de 100 com saída
para 50 de esgoto, que serve para
tampar o suspiro da fossa e atrapalhar a
beleza mágica das flores,
aliás, a palavra suspiro é muito mágica
para anteceder a palavra fossa.
Deveriam urgentemente arranjar outro
nome para isto.
Afinal, suspiro é um doce caseiro,
suspiro é um arrepio por dentro,
afinal, suspiro é pensar em ti...
suspiro é seguir uma interjeição, que,
segundo Eurídice, ia de quadrante a quadrante,
no costelado de um cavalo, rompendo cerca
abrindo pasto, cobrindo uma jornada,
pra voltar a minhas mãos.
Este é o suspiro.

terça-feira, abril 16, 2013

o desenho






dois se namoravam sem saber,
havia uma ruína uma árvore, velha,
uma gameleira, era ou não 
uma janela coberta de 
era, de outra era.

uma parede verde musgosa
lembranças de vozes
e coro, lembranças
de preces e cruzes
no alto os urubus pairavam
imóveis, quase vorazes.

um túmulo silencioso, da janela 
se via o verde acarcado, o rabo dum
bicho sumido e uma música longe
um caramujinho passava
de lado a lado, leniente,
fazendo seu brilho no rastejar
incerto, porém, impávido.


sábado, fevereiro 02, 2013

o olhar






é o olhar que criva, que dói,
o olhar de quem destrói.
é o olhar de quem se irrita,
daquele que incita.
sopra na fumaça o espanto do veneno
do dito, do desdito,
do quisto e do mal quisto.
é o seu olhar que cura,
e torna a vida mais dura.









sexta-feira, janeiro 25, 2013

quinta-feira, janeiro 17, 2013

estrelas








quando eu era jovem gostava das estrelas
media o céu escuro, palmeava
de um mapinha azul conhecia as constelações
as estrelas, as coisas mais belas

ah como era tudo longe, eu era sempre um apaixonado,
e enquanto meus amores fugiam de mim,
mais as estrelas se aproximavam.

estou ficando velho, dei para olhá-las de novo
palmeio o céu, me conduzo por elas,
o mesmo mapinha azul, me lembra dos caminhos
feitos, dos atalhos trilhados, hoje tudo é mais belo
tudo é mais denso e profundo

o ar já me falta, o corpo se esconde bem na escuridão
e as estrelas ainda estão lá, me esperaram esta eternidade
toda.
hoje não tenho mais paixão, não tenho mais vontades,
não tenho mais querer.
os amores não existem, as estrelas insistem...

sexta-feira, janeiro 04, 2013




Robespierre está para Danton assim como Stálin para...
Ah as proporções, claro, as devidas,
todas tomadas estão...