domingo, agosto 14, 2011

marcel


É emblemático que ele, mesmo trabalhando em casa, mesmo sem nenhuma expectativa de receber visitas amistáveis ou bélicas, quais fossem, já que clientes não os tinha, se empinava na eretidão do espaldar inflexível, em seu semi-terno, com gravata e abotoaduras todas. Fazia a questão ritualística, de nunca vergar, de nunca ceder. Como que, se, a ordem do mundo, de repente, no piscar do olho do abutre, se amainasse. E todas aquelas cargas insuportáveis perdessem seus valores, suas toneladas, suas cores infundadas.

Diante de qualquer trabalho, fosse o de recensão, fosse o de edição ou mesmo o de visto diário encima de textos a serem retrabalhados ou preenchidos, aliás, a simples leitura habitual diária, era mantida a postura de quem está sempre posto frente a grande público. A barba era feita meticulosamente duas vezes ao dia, mesmo porque, densa e escura, fazia a notória e não (para ele) tão boa impressão.

Naquela época eu era um cinzeiro, sim, um cinzeiro, Marcel não fumava, e com a escassíssima possibilidade de ser usado, mantinha uma vida feliz, vez ou outra, quando muito, aterrizava um clips, ou um saquinho de chá, molhado, grudento, sobre mim. Mas era raro, já que Marcel se apegava muito à organização, e qualquer ato compulsivo encima de minha bacia era corrigido em poucos minutos. Passei com o tempo a entender o que ele falava, já que, era de sua mania conversar consigo mesmo. Era sua a mania de recordar os acontecimentos passados sempre em voz alta.

Assim lembro de suas lembranças na escola, da brincadeira, para ele sem graça, não tenha o espírito tão enriquecido assim, uma afronta que era diretamente alusiva a seu sobrenome, sendo que seu desempenho escolar era bem acima da média. Era um espirituoso e disso não tinha culpa. Se aparecia era a sorte de sua raça que se destoava.

Suas aventuras, que aventuras? No Gueto de Varsóvia, naquele inferno. Talvez a maior teria sido o livro de poemas à amada. E assim, transcreveria de cabeça um livro de poemas, Um Jovem Ama uma Menina, pincelando aqui e lá poemas de grandes nomes da literatura que se acomodavam em sua memória tenra e vasta. E leriam juntos, noites e mais noites, nas fugas voluntárias, no desespero da prisão, na insalubridade da ignorância. No ranço do acontecimento presente. Medo? Talvez, mas provavelmente do acontecido e do a acontecer, do presente só tinham o desentender normal dos jovens que queriam o amor e a vida normal.

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