quarta-feira, julho 20, 2011

anônimo

estante







Devia feder debaixo daquela roupa espessa, escura. Claro que o frio era implacável,
claro que a pena sujava-lhe a mão horrivelmente. Claro que o que ele escrevia era
romantismo úmido, tinha o cheiro do orvalho dos campos de centeio do norte, ou
o ranço da pouca madura.
Os passos foram sempre pesados e firmes, o soalho impregnava o som de séculos, e o
que ressoava do carvalho seco e lustrado era o compasso de outra caminhada. De
outra era.
A poesia encarnava a paisagem, os campos, as reses, os pés de maçãs carregados,
os patos, ora em vôo ora nadando.
O amor era saudável como o rosto vermelho da camponesa doce. De fartos seios e de
pele rija, clara.
A guerra era o palco dos fortes, da honra, da cabeça que se erguia para o sentimento
pátrio.
Era este o literato desconhecido, o poeta da terra, o contador e inventador de estórias,
o anônimo que foi autor de todas as escritas que não tiveram pai e nem tampouco,
mãe.

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