quinta-feira, junho 09, 2011

sintonia

João olhava a paisagem distante (não se sabe se João ou a paisagem), de cima do rochedo amarelado o azul do mar se estendia fictício emendando ar e água em degradês alcançados pela paleta do pintor. Suas mãos percorriam o ventre de Juliana que estava a sua frente, calada, colada a ele. Acariciava-lhe subindo de costela a costela até as sombras calcáreas dos seios, e como caneta tinteiro, deslizava para lá e cá maciamente, seguindo as curvas das letras do poeta.

Houve uma fissura, você e eu tomávamos vinho em copo, um vinho de primeira, espanhol e fazíamos o alarde disso, para que as pessoas nos olhassem e nos olhavam tortamente. Nosso vinho continha água, muita água e se tornava rosé e ficava fraco e tudo era uma farsa esquisita, mas os outros não sabiam, até que o torto do olhar se transformava em inveja. Houve juras recíprocas e os corações batendo forte e minha cabeça doía, e o carro virava e eu ouvia novamente as tartaruguinhas batendo sob os pneus que sacolejavam e eu não entendia o porquê do seu aperto, por quê me apertava assim o braço, e me lembrei que Kafka tinha ficado sem ar quando o peguei pelo braço para ajudá-lo.

Acima, lá, o personagem principal que não vê o rosto de Juliana julga somente quem seja, mas não sabe e não a vê. O cérebro trabalha e dificulta as coisas, por mais claras que pareçam ser.

Juliana já não é Juliana, Juliana são todas as mulheres dos sonhos, e contracena com o personagem principal. Agora é Juliana dois que brinca, que se embebeda e ri do público, e se jubila com a situação e faz cara feia ao sentir o gosto semi-azedo do vinho aguado.

João olhava a tela do computador, Juliana, a terceira, aponta com o dedo o que parecia o menu de um DVD, eram imagens dela ao lado de José, aquilo intrigou e enturveceu os olhos de João, era alguma história a ser contada. João se concentrou, achava extremamente estranho o fato de não ter ouvido nenhuma vez a voz de Juliana, nem sabia mais como soava, aliás, quem era Juliana? a imagem que aparecia no ecrã era-lhe conhecida, o cabelo de outra época, na verdade tudo estava parecendo agora como se fossem fotos amarelecidas com o tempo.

Cada vez que o mouse passava em cada imagem esta se mexia e um filme acontecia, primeiro o sorriso largo e gaiato de Juliana mãos dadas a José, rodavam como crianças em um jardim verdíssimo, Juliana de leve pegava um vôo curto, sua saia voava e seu rosto branco se avermelhava.

Em outra imagem acontecia a figura de Juliana com olhos inchados, uma criança num cantinho via uma cena mas mostrava que não queria ver, ela se espremia entre as duas paredes, José parecia se agigantar, José era bonito, tinha uma barba bem feita e um rosto saudável, se impunha mas não dava a impressão violenta que alcançava, a violência sua era vista não nos atos, mas nos resultados.

Em cima de outra imagem tinha um dístico que falava da maior paixão de Juliana e José, o paraquedismo, eram fascinados por este esporte, o mouse voava em cima de um para-quedas e se abriam inúmeras outras imagens, os dois estavam nos mais diversos cantos do mundo, viam-se na neve, no Tibet, na Suiça, em Oklahoma, em Montreal e até mesmo caindo sobre a cidade do Cairo, uma das mais bonitas mostrava os dois de mãos dadas em um só para-quedas e no fundo se via a Pirâmide de Queópes.

João via agora, uma última cena, o para-quedas de Juliana se esvoaçando, José sorria sarcástico, não parecia aquele cara sereno, mau em sua candura. Juliana se desesperava e a imagem do ecrã olhava diretamente para João, que nada podia fazer, e que tentava segurá-la, tentava apará-la, em vão. Juliana rodava, rodava, na roda com João, com José, com João tentando pegá-la na mão e rodava e caía e rodava e caía e rodopiava e era o infinito céu, sem fundo num abismo profundo e escuro.

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