sábado, novembro 20, 2010

dona Lourdes








Seria fácil se fosse somente contar sobre a experiência, isto é, aliás, o que deve ser mote. Amplificar a experiência vivida e dar a ela o toque de estilo, a forma e os coloridos a que se convém dar o nome de arte. Mas nem foi experiência, ou de outra forma, não foi uma experiência quase que alheia, externa, exógena. Não teve e não tinha fundo musical, não havia baloiçar de folhas nas grimpas das árvores, nem houve o verde de gramas e o murmurar sorridente de riachinhos morro abaixo. Não foi visto, por ali e por toda parte, nenhuma ermida em sua indolência com seu adro debaixo do sol hostil. Nem aquele cemitério de fundo, pacífico, onde os sabiás cantavam no final da tarde e eram respondidos por bentevis atrevidos. Não, nada disso, a experiência era só aquela intestina, a que se passava entre fígado e estômago, onde a diástole esquentava e a sístole dizia de um coração carente e bom. Tudo eram panos de interioridades, tudo era silêncio de tentativa de entendimento, tudo era no fundo, um grande desentendido.
Por qual motivo a experiência exógena não é intestina, externa não é interna, por que essa disparidade?
Porque o que se vê de fora são as ações do de dentro e é exatamente de dentro que se ouve a música, se vê o verde e se qualifica o sol a pino na moleira da igrejinha resplandecente. De fora se sente o gosto de sentir o de dentro sentindo a música.
Estava eu em meu cavalo, e por cá passava sempre, olhava o verde da grama e vez ou outra me tocava da estação vindoura, meu sentimento sempre esteve no que viria.
Era uma casinha rosa, e toda semana passava por ela e presenteava dona Lourdes com uma flor, sem cor, sem cheiro e sem caule, que de cima do cavalo, apanhava. Ela ria e me chamava de filho, seu sorriso de índia, sua pele brilhante, seu vigor de outras idades.
Não sei por qual motivo, mas eu gostava de repetir este roteiro, o caminho, o pensamento de que veria a casinha em seu rosa desbotando e a esperança de encontrar a janela aberta, sentir o movimento da lenha sendo acochada no fogão e trazer alguma novidade para lhe agradar e ouvir aquele “meu filho”.
Dona Lourdes sumiu de súbito, mas ainda era. Tempos fiquei sem vê-la, meu coração sentiu um lampejo de falta, que não compreendi, dona Lourdes voltou, e meu ritual voltou, a florzinha sem cor, sem cheiro e a novidade velha, o viço de moça que envelhecera. Era bonita dona Lourdes. Seu olhar era mais doce e seu jeito mais faceiro.
O contar. De outro ângulo eu ia acompanhando isto tudo, marcando cenas, gravando muxoxos e cochichos, estudando, semblantes daqui e palpitações delá. Parecia que um outro, outro alguém desenhava a cena em papel grosso, amarelado, com carvão afilado e que cá e lá retocava e reforçava os contornos de nós dois.
Eu era muito mais moço que dona Lourdes, ela poderia ser minha avó. Eu já sentava em sua cozinha há muito, meu cavalo ficava debaixo de uma goiabeira enorme, comia o bolo modesto e tomava seu café doce, e conversar era o que não se via. Ela, velha em sua idade, eu, moço de bobo. Dona Lourdes me chamava de menino.
Fiquei sabendo da vida de Dona Lourdes, pelo pouco que falávamos, ela com seu escasso vocabulário, sua fala mansa e ponteada, seu olhar me apertava o coração, ela olhava fundo no olho da gente. Tinha um filho boiadeiro que voltava só nos fins de anos, trazendo a prenda para a santinha do canto da sala. O outro era casado e morava na cidade, tinha dois filhos doentes, um doente dos ossos e o outro da cabeça, e a nora era curta dos sentidos. Dona Lourdes sentia uma dor de sozinhês que custava a repartir com os outros, só vez rara se remoia e se condoia de si própria.
Fui mandado pra outra parte e não pude mais ver a minha dona Lourdes.
Voltei depois de tempos e outonos. Refiz o caminho, a última flor que lhe dei tinha caule, era vermelha e rescendia um cheiro que deixava a gente tonto. Não sei o nome. Senti de verdade que meu coração queria o de dona Lourdes. Ela estava mais velha, mas nem se via, contei a ela das minhas andanças e senti no seu suspiro uma tristeza ainda não vista. Ela me falou pela primeira vez da falta que lhe fazia seu finado marido e da dificuldade da solidão, acho que dona Lourdes se declarava para mim, tive medo, corri e nunca mais voltei.
Fiquei sabendo de sua morte mais tarde, olho para o tronco da goiabeira e vejo seus olhos de índia me espiando e contando de um desejo que não podia ser aberto. Tinha de continuar velado. Chorei muito, solucei, e não entendi direito aquilo tudo. Lembrei-me que da última vez que nos vimos ela não me chamou de filho, nem de menino, o que me fez correr foi sua voz, no atropelo do coração, me chamar de amor.