sábado, julho 10, 2010

josé

de um canto da estante







Onde quero chegar, a pergunta torta que me atormenta neste instante, onde quero chegar com isso que estou a escrever. Mesmo que uns não se aguentem sobre impaciência, meu escrito se contorce vagarosamente e antes mesmo de ser grafado sobre papel, com grafite ou tinta, vai a lutar nas fileiras inconvenientes de meus pensamentos. Tortuoso é o caminho à luz que se dá, tortuosa é a forma a que se propõe a tomar e mais tortuoso é o conteúdo, que proposto, é um e, solto, livre, vai em direção, vezes muitas, oposta ao querido.
A falta sentia eu de Urs, amigo velho com o qual comungo livros, músicas e estilos de vidas, não tinha este para olhar o olhar dos amigos, que quer dizer do que se concorda e o discôrdo. Jantávamos em separado, devido à dimensão minúscula das mesinhas da mensa. Cada qual com seu cardápio escolhido do modesto e simplório menü universitário. Em meu prato uma lazanha esverdeada, dividindo espaço com simples salada. Antes o José já tinha me dito de sua fome. Do mesmo modo que eu, nós, José e Theo, o livreiro português, comiam sofregamente, sofregamente estes, enquanto, nós, apenas comíamos. O vinho verde acompanhava o jantar e o clima. A noite era portuguesa. O espaço era alguma universidade ou associação de Frankfurt, nada de Escola de Frankfurt. Estamos aí por volta de 1998.

Todos os Nomes, aquele que há pouco lhe autografei, vai ver aí o que procura. Disse-me José. Mas... será que eu mesmo transparecia meu conflito, me perguntava assombrado, e era essa, obra difícil, impalpável, quebrada... O problema era que o dilema, este, viria muitos anos depois, muitos, viria quando, ah... E conversávamos sobre as injustiças do mundo de lá, que era o meu na época e do mundo de cá, esse, aqui, o palpável. José falava com propriedade sobre os dramas do povo, tanto o seu, português, quanto o do resto do mundo, o povo, diria ele, anda a sofrer igual, o que muda são as formas e as proporções reais.
A janta se foi, Théo, o livreiro, cordato e equilibrado que só ele, tinha o orgulho de ter tido que deixar sua terra, seu Portugal, devido as efervecências do início dos anos setenta, pois que, metido estava, no destino da democracia de seu país, ía apagando as luzes de nossa conversa na medida em que, no gosto azedo final do vinho, ia se envolvendo em si mesmo. José ainda ia ter de falar ao público, voltaria com a barriga cheia e de melhor humor. E contaria a estória da maior flor do mundo. Por ter ouvido de sua boca e de seu português ferrenho, jamais ousarei lê-la eu mesmo.
Eis que, anos depois me deparo com essa lembrança boa, reentrei em Todos os Nomes e lá encontrei algo que procurava mas que nem sabia da procura, encontrei a estória da solidão, da ante-câmara do desespero e da saudade imensa, saudade do inefável. Encontrei ali naquelas páginas algo tão íntimo e intransferível que arde a goela. Só eu pude e poderei entender alí o que significa a palavra musa para um poeta. Só eu poderei, no meio de tantos nomes apontar para aquele e dizer, este é o nome e este nome é a razão de meu viver.