terça-feira, abril 06, 2010

Traum

Chegamos em um lugar lindo, parece que era início do outono, plátanos jogavam suas folhas vermelhas pelo chão, amarelas salpicavam a cor de sangue no solo decorado. O clima era simplesmente aconchegante, dava gosto a permanência ali naquele parque, e além do mais o tom da estação contrastava com o sentimento da estação, na tela era frio, mas na realidade o que se sentia era um verão gostoso, tão envolvente como o útero de uma mãe.

Era, com certeza, algum lugar nas portas da cidade da luz, Paris ria-se e envolvia, mas o que víamos era um lugar feito só pra nós, não existia ninguém, não existiam pássaros, não existia ruído. Nada se via movendo, só os plátanos e as bétulas que balançavam e espalhavam suas folhas como que se o decorador mexesse em alguma maquininha de decoração que ia sobrepondo as folhas ora vermelhas, ora amarelas como que em um quadro pintado com pasta acrílica.

Coisa esquisita era, também, notando-se toda essa quietude pitoresca, uma música que surgia e chegava até nós, chegava do infinito, chegava do impossível. Por mais que eu procurasse, olhasse, e quase que, por isso, me descabelasse, não tinha como encontrar de onde saía aquela música, era uma melodia, claríssima, completa, quis até apanhá-la no ar, de tão real e sólida que parecia. Era algo que lembrava Mahler, misturada com Debussy, às vezes.

Me vi sozinho, a paisagem continuava lá, o decorador resolveu colocar, agora, um lago ao fundo, não caminhei, não saí do lugar, vermelho e amarelo se sobrepunham no chão, bétulas e plátanos continuavam em sua dança feminina, mas aquele lago se unia àquela música, tudo ficava mais incrível, da água saía como que uma névoa, uma bruma, não era espalhada, flutuava em cima do lago. Pouquíssimas folhas singravam aquela água branca, alguns gravetos e parece que manchas escuras tingiam a superfície da água, o que me levava a crer na existência de velhas pedras ali submersas.

Apesar de não saber nadar, a música, o singrar das poucas folhas, a falta de vida e a névoa me chamavam para a água, sem pensar, seguindo o ritmo que esses componentes me impunham, descobri minha nudez, minha solidão se tornou tamanha, dolorosa, e para fugir das árvores pulei naquela água nem quente nem fria nem morna, e ali me aninhei por um bom tempo.

Submergi e abri os olhos vagarosamente, nadava, e nadava bem. O lago tinha uma água densa e turva. O turvo era esbranquiçado, de modo que o que eu via era sempre difuso, foi quando me dei conta dos inúmeros cadáveres brancos, carecas, nem gordos nem magros nem fedidos nem feios, que me roçavam a pele e que passavam nadando por toda parte. Fechei os olhos. Não me lembro de mais nada.





este escrito vai para Marise Blanc