sábado, julho 24, 2010

do passado

de tempos






Aos poucos vou descobrindo que o homem possui uma memória muito mais incompleta do que as mulheres, percebo isto nas conversas e nas relações do dia a dia. Por isso não me julgue mal por estar sempre a falar do passado, como se este fosse o ninho das maravilhas do mundo. Não é, porém, por ser-me escuro, pelas lembranças andarem em vai e vem, desconexas e, por muitas vezes desconsonantes, preciso me agarrar a elas, às lembranças e arrancar-lhes o que resta, espremê-las e de seu sumo poder aproveitar o máximo que possa de um mínimo que existe. Na realidade o que existe de sofrimento em minha vida ou em meu passado é a minha relação com a lembrança. É difícil esse exercício, não ocasionalmente, nauseabundo.

O que normalmente deve vir em imagens conexas e lógicas passa por minha cabeça surreal por demais, cortado, picotado. Preciso completar essas lacunas, e que lacunas! -lagunas, seria melhor dizer,- com a pouca prosa que tenho, entenda-se a importância, então, da literatura em meu mundo miúdo. Pode o outro chamar-me mentiroso inglório, celerado na força da palavra e da epístola, não pode o outro entrar em meu miúdo mundo e de lá entender qualquer coisa. O outro não sabe da minha necessidade de, digamos, construção cooperativa da realidade. Minha.

Não sei simplesmente descrever o que se passou em brevíssimas letras, a tendência de floreamento vai muito mais além da estética, ela serve de paisagem. É a decoração do que se passou comigo. E vira-se a bela menina de olhos de leopardo, cabelos louros como que se de anjos fossem, e num sorriso mais franco que pude presenciar em minha vida me convida ao jogo-da-velha. Eu, que, averso ao jogo e as apostas, me entreguei de pronto a tal façanha. A pergunta não pude deixar que presa ficasse. Perguntei-lhe se era nova alí, o que em uma onda de riso e sinceridade deixava trasparecer inequivocamente o quão errado estava.

Sim, já tinham se passado várias semanas e só alí, naquela hora, me era consciente a sua presença, sentada diretamente a minha frente. E essa presença se tornou fundamental em minha vida apartir daquele momento, o que poderia se chamar talvez amor à primeira vida ou algo parecido...

Sem falar que a vida para mim se torna mais bela desse jeito, não tenho o futuro, nem me interesso por ele, o presente arrasta-se em minha frente como um ente disforme e mole, está a se derreter em sua doença peçonhenta, possuo o passado coberto em névoas que tento desvendá-lo e nele, me tornar artista, poeta e senhor do meu miúdo mundo.

2 comentários:

Ursel disse...

Erinnerung ist eine Form der Begegnung.
Khalil Gibran

conradopreto disse...

Profundo miúdo mundo.