terça-feira, outubro 06, 2009

tentativa

tempo de resguardo








pegar um pé dum filósofo

que diz que
somos um tubo digestivo
amarrado a um cérebro
que vê tudo e que faz poesia*
e pensar e crer e ter a certeza do
belo real, da exatidão da proposição.

man ist was man isst, fala um alemão
a gente é o que come, e é e digere
é o que ficou sendo
é interferência direta
é controle externo e descontrole
interno
a gente é o inferno

e do fundo irrompe o medo
que me mantém vivo e de olhos
arregalados, enregelados
a nuca tesa e a pele molhada de frio
a cidade escura, vazia
as ruas incríveis, tendo novas cores
e me vem uma frase latina, besta,
lógica
toda badalada nos fere
a última nos mata


* L. F. Poudé

domingo, outubro 04, 2009

negras rosas

tempo de espera







quem sabe seja agora, outra vez, a hora

de fechar a porta, passar a chave
olhar pra dentro pensar profundo
entender-me a parte
no mundo na lembrança no instante

ver dentro, sentir o fundo
recarregar as tintas
as forças, aproveitar os estados de só
sem dó,
visitar os fantasmas recalcados,
as marcas nas poltronas
que mostrou-me o Nava

tactear no escuro
sabendo a certeza dos pontos de luz
que não se acenderão
sabendo que aqui pra direita tenho
a janela inerte e blindada
a noite que não vejo
a curva que não quero

ora, será? hora
de reparar nos começos
dos desenhos dos sulcos no rosto
do cansaço dos olhos fracos
no início e no fim da irritação vã

despeço-me daquela marca na
poltrona que era de meu amigo,
que há pouco foi, ficaram seus filhos
meus queridos
despeço-me da cantora distante
não contenho o pranto
umedeço um canteiro
em que rosas negras
resplenderão


ao meu amigo Sr. Thomé, que se foi