terça-feira, agosto 04, 2009

Na Terra dos Sedentos





Nada Verde


Ao lado dos Estados Unidos da América e do Japão, a Alemanha tem o maior consumo de água per cápita. Segundo a organização mundial ambientalista WWF, cada alemão consome 25 banheiras de água por dia. Um dos muitos motivos é o consumo excessivo de café.

Por Silvia Liebrich




O consumode água dos alemães é muito maior do que era sabido. Mais ou menos a metade do consumo provém indiretamente das importações de alimentos e produtos industrializados. É o que diz um estudo da Organização Mundial do Meio Ambiente WWF, ainda não publicado e que agora o Suddeutsche Zeitung apresenta. Com isso, os alemães consomem três vezes mais água do que o Lago de Constança pode receber.

O café é, indiscutivelmente, a bebida preferida dos alemães. Estatisticamente cada alemão bebe em média 2,8 xícaras de café por dia, isso, na realidade, equivale a um consumo de água de 392 litros. Em princípio soa sem muita lógica, mas mesmo assim é verdade. Supondo que somada toda a quantidade de água, que, por exemplo, um país agrícola como o Brasil, precisaria para produzir a devida quantidade. Indiretamente é importado por ano quase dez bilhões cúbicos de água, somente para cobrir o consumo de café. Somando todos os produtos industrializados os alemães consomem 160 bilhões cúbicos de água.

Ainda que o consumo de água dos alemães vem caindo nos últimos anos (cada pessoa consome 124 litros por dia, há duas décadas eram 144 litros) “Mas o consumo real diário deixa uma pegada aquática de 5288 litros por pessoa, o que dá para encher 25 banheiras” diz o especialista em água do WWF Martin Geiger. A Alemanha, que é tida como uma das nações mais ricas em água no mundo, pertence, juntamente com os Estados Unidos e o Japão, aos maiores esbanjadores de água. Isso também foi mostrado, entre outros, pela Unesco, em uma pesquisa feita em 2004, na qual foram incluídos os maiores Exportadores e importadores de água.


O Problema das Exportações


O Estudo, que será apresentado oficialmente pela Organização WWF, nesta segunda-feira dia 03 de agosto, fará, pela primeira vez, uma análise completa das “pegadas aquáticas” que a Alemanha tem deixado pelo mundo todo. Uma equação que não leva em conta somente o consumo direto. Ela também abrange a quantidade de água que é usada nos países exportadores de bens de consumo assim como produtos industrializados que são vendidos por aqui.

Segundo a WWF, cerca da metade da água consumida na Alemanha vem de produtos importados de países estrangeiros, com a tendência de elevação. Especialmente alarmante para a WWF é que, grande parte desses produtos é proveniente de países com falta crônica de água, como o caso da Espanha e da Turquia, o que acarreta conseqüências desastrosas, pois com isso a seca piora ainda mais. Por isso a WWF exige uma mudança conseqüente nas políticas de água européias que deve assegurar que com as canalizações de água doce não se permita baixar os níveis de água dos rios, do lençol freático e das regiões pantanosas, uma prática, aliás, que até agora não foi de maneira alguma observada.

Não somente a WWF, mas também a Organização das Nações Unidas e a Organização Mundial da Saúde, chamam a atenção para um consumo descontrolado de água. A Espanha sofre a cinco anos de um período continuado de seca. 80 por cento da água consumível existente é sugada pelos solos das plantações. A conseqüência dessa cultura exaustiva é a diminuição das reservas subterrâneas, rios que vem sempre se escasseando e aumentando a falta de água nas cidades grandes. Muitos outros países do mediterrâneo lutam também contra este problema, países que são os mais importantes exportadores de verduras, frutas e legumes para a Alemanha. Um exemplo é a Andaluzia, na Espanha. Região tida, não somente para a Europa, mas também para o mundo todo, como a maior produtora de morangos. Mais de 60.000 toneladas dessa fruta vermelha foi vendida para a Alemanha. Os altos números dessa produção seriam impensáveis sem a canalização artificial. Grande parte da água para isso utilizada provém de poços ilegais, os quais, segundo estimativas oficiais, ultrapassam as 1000 unidades, na cidade de Huelva.

Com isso, a Alemanha importa 1,8 bilhões cúbicos de água da Espanha e 1,9 bilhões cúbicos da Turquia. Mas a maior pegada aquática deixada pela Alemanha, com 5,7 bilhões cúbicos, está mesmo no Brasil, responsáveis por esses números são o café e a soja para a industria de rações, que são exportadas do Brasil para a Alemanha.

Segundo Geiger, mesmo sendo o Brasil o país mais rico em precipitações no mudo, “existe também, lá, uma crise no setor” argumenta o especialista da WWF. A poluição descontrolada dos rios seria a responsável, e tida como causa principal de doenças contagiosas.

A maioria da água consumida na Alemanha, direta ou indiretamente provém 74 por cento do setor agrário. O alto consumo de carne também aparece visivelmente. Mais de 50 bilhões cúbicos de água são consumidos, somente, através da pecuária. Com uma participação de 23 por cento vem a produção industrial, o consumo de água doméstico quase que não tem expressividade nenhuma, pois acarreta somente três por cento do consumo.



Artigo publicado no Suddeutsche Zeitung 02 de agosto de 2009

Tradução de João L. B. Penharvel (Confligerante)