sexta-feira, abril 10, 2009

Pedro

(de um canto da estante)








Pedro estacou, estatelou. Pôs o telefone no gancho e calou-se mais ainda, sombrio.
Intranquilo, foi até o banheiro e se trancou. Passou a mão em volta do espelho como se o fosse ativar, ligá-lo. Viu sua imagem mais nítida do que nunca, tirou os óculos e concluiu estupefato que, sem eles, via bem melhor.
Notou que suas rugas estavam mais profundas. A pele mais flácida, os olhos tinham um brilho de vida que teimava em peitar o resto do corpo. Via também, aliás, que o resto do corpo não ia tão mal já que sua idade estava bem avançada. As mãos ainda ágeis. Os braços inteiros e flexíveis, os ombros caíam o normal. Era velho e digno e isso refletia na vida, no corpo.
Suas rugas do rosto contavam uma história bem sua, contavam o que os olhos tinham vivido.
Olhava a ruga profunda e via a desgraça da doença corroendo os homens, via a ambição, a intriga. Via a guerra. As marchas picotadas de 1917, um filme inconstante no passar. As epidemias a dizimar o que ainda sobrava do sopro podre dos combates covardes, todos.
Mais a diante a tirania contra as diferenças passava tremida ante a estridência demente dos discursos homófobos e incultos, a incivilização ardia em cada vagão que passava carregando a matéria humana prenhe ainda de vida e de esperanças rumo aos KZs e aos guetos. O soldado que apartava a mãe de sua criança querida, cara, mandando uma à câmara e outra ao léu, não era humano, ou o era demais.
As rugas contavam. E o padre excomungava, o bispo ralhando farto, a polícia batendo, intransigindo, o partido partindo ao meio uma nação que já não se encontrava.
Uma mulher apanhava do marido, uma criança era violentada, uma escola desensinava. Seus olhos tornaram-se púrpuros. A garganta lhe ardeu.
Pedro aconchegou a pistola no bolso interno do paletó, Sentia ainda aquela fascinação estranha por ela. Sua forma equilibrada e fria, seu perigo de serpente, o poder se seu cuspe venenoso de fogo.
Debaixo de uma árvore, que devia ser uma castanheira posicionou-a junto a fonte direita. Fez um esforço e tentou pensar pela última vez num amor. Porém o que nunca mais saiu de sua cabeça foi a imagem daquele cão, sentado...

terça-feira, abril 07, 2009

sehnsucht

de tempos de melancolia feliz







sinto falta do poema disforme que corria
amorfo das veias às unhas
das palavras de migalhas
vãs, outras cheirosas
que contorciam os cantos
da folha fedida que saia esmagada
da máquina velha de datilografia.
no i o pingo que era pingado
os acentos todos postos, assentados
tonificando, diferenciando
me mostrando a chique proparoxítona,
as palavras iam trote a trote
vergando, aprumando, tremendo
espirrando na parede ao lado
o som absorvido de alguma suíte
pinkfloydiana
tenho saudade do termo radical
da flexão irresponsável
que colava a bunda da moça que
passava na rua na menina
frágil dos meus olhos