sábado, novembro 28, 2009

scarecrow




















o espantalho (Syd Barrett)








o espantalho preto e verde estava lá,
todos sabem como, encima de seu chapéu
tinha um pássaro e palha por todos os lados
o que não o atrapalhava
ele estava em um campo onde crescia cevada

sua cabeça nada pensava
seus braços não se moviam, a não
ser quando o vento assoviava em sua cabeça
e os camundongos pulavam pelo chão
ele estava em um campo onde crescia cevada

o espantalho preto e verde é mais triste
que eu
mas agora já está conformado com seu destino
pois, a vida não é tão desumana assim,
pra ele tanto faz
ele estava em um campo onde crescia cevada


traduzido por bruder franziscus e confligerante

quinta-feira, novembro 26, 2009

cão, a ectoplasmice









Para entender melhor o ectoplasma do mal, como dizem
aí no meio, no caso do Serra mais complicado ainda,
é necessário fazer a releitura de Grande Sertão,
Veredas, ora, lá estão descritas várias formas,
nomes, tipos, termos que denominam e exemplificam
nosso político de São Paulo. Ricardão e Zé Hermógenes,
Zé Hermógenes, taí, perfeito, o Zé Serra pode ser
de agora em diante denominado de Zé Hermógenes
(tem até um Q de ECTOPLASMA aí nesse nome, não?).
Leiam o livro concentrados somente na figura do mal, esqueçam
Diadorim e sua beleza, esqueçam a paisagem roseana, esqueçam
até mesmo o baldeador de rios, o Riobaldo,
o Diabo tem de ser a figura única de sua concentração.
Aí sim, entenderemos melhor o Zé Serra, quer dizer,
o Zé Hermógenes. E sua ectoplasmice.

terça-feira, outubro 06, 2009

tentativa

tempo de resguardo








pegar um pé dum filósofo

que diz que
somos um tubo digestivo
amarrado a um cérebro
que vê tudo e que faz poesia*
e pensar e crer e ter a certeza do
belo real, da exatidão da proposição.

man ist was man isst, fala um alemão
a gente é o que come, e é e digere
é o que ficou sendo
é interferência direta
é controle externo e descontrole
interno
a gente é o inferno

e do fundo irrompe o medo
que me mantém vivo e de olhos
arregalados, enregelados
a nuca tesa e a pele molhada de frio
a cidade escura, vazia
as ruas incríveis, tendo novas cores
e me vem uma frase latina, besta,
lógica
toda badalada nos fere
a última nos mata


* L. F. Poudé

domingo, outubro 04, 2009

negras rosas

tempo de espera







quem sabe seja agora, outra vez, a hora

de fechar a porta, passar a chave
olhar pra dentro pensar profundo
entender-me a parte
no mundo na lembrança no instante

ver dentro, sentir o fundo
recarregar as tintas
as forças, aproveitar os estados de só
sem dó,
visitar os fantasmas recalcados,
as marcas nas poltronas
que mostrou-me o Nava

tactear no escuro
sabendo a certeza dos pontos de luz
que não se acenderão
sabendo que aqui pra direita tenho
a janela inerte e blindada
a noite que não vejo
a curva que não quero

ora, será? hora
de reparar nos começos
dos desenhos dos sulcos no rosto
do cansaço dos olhos fracos
no início e no fim da irritação vã

despeço-me daquela marca na
poltrona que era de meu amigo,
que há pouco foi, ficaram seus filhos
meus queridos
despeço-me da cantora distante
não contenho o pranto
umedeço um canteiro
em que rosas negras
resplenderão


ao meu amigo Sr. Thomé, que se foi

quarta-feira, setembro 30, 2009

enredo de casa

de um sentimento contido










conta a lenda que na divisa do Reino de Espanha e de França, perto do castelo de Lancheuffer havia uma pequena aldeia, formada por espanhóis pobres que viviam da riqueza feudal do castelo. Entre os pobres da aldeia vivia um rapaz robusto, de longos cabelos, nascido e crescido naquela região, francês de nascimento e espanhol de sangue, envolvia a todos com seu modo de falar e sua sagacidade. Criou-se com e por franciscanos, ninho de cultura onde jovem plebeu alimentou-se.
Não distante, no castelo, morava a linda princesa, cujo nome envolvia-se em nostálgica pureza branca da pele e a fascinante e envolvente cor de seus olhos, a água marinha, daí imaginar-se-ia o motivo que lhe atribuía a fama de ser a mais linda, a mais linda, a mais linda e doce de toda região.
O resto da história não necessita de continuação, é historia conhecida, com actos infinitos, com personagens dos mais díspares e de finais de tristes a felizes.
mais não quero dizer...

domingo, agosto 30, 2009

vão

a máquina de lavar roda, grita, esquenta
me dá vontade de correr, sair sem destino
imagino um campo verde, limpo
limpo, um campo limpo

penso na minha mente mentirosa
preciso da minha mente limpa
minha mente limpa, não há, fazia muitos anos

tenho um trato mas não sei com quem
que é de me limpar pela primeira vez
ficar só, num mundo limpo e com a cabeça vã

sentir o silêncio da falta do homem do abacaxi e
da melancia de Glaura
sentir o silêncio da falta da calhordisse dos jornais
e dos políticos, e dos artistas, e dos animais e dos santos
e dos satanazes

jogar fora o celular, o outro celular, o emprego,
vender a casa e comprar um campo
jogar fora esse lepitopi e essa interneti
vender o carro e a moto
comprar um burro e uns cabritos

me tornar bucólico, tomar banho no rio
me secar ao sol, comer manga até cagar amarelo
hast du schon überlegt, wenn deine Schwester
nicht deine Schwester wäre, wäre sie deine Freundin?
aí está a cagada...

quarta-feira, agosto 12, 2009

caro data vermibus

caro data vermibus
caro data vermibus
revolvem as carnes
nos fundos das covas
fedidas fedidas

carne furada a tiro
numa manhã de sol e calor
calor para feder o tecido
queimado do tiro
que ardeu em fogo

revólver calibre 38
cromado e de cano curto
na mão de algum rapaz
eloquente
a cara do crime é branca

o rapaz roubou um revólver
de seu avô
de tédio
e do alto de sua sacada
enfastiado do video game
alvou de vermelho
um rabino que passava pelo outro
lado da estória

o revólver fez um
cadáver
de tédio, de cara branca
de precisão e de cartola
preta

carnes revolvem os vermes
que revolvem as carnes
que revolvem os verbos
e deus foi pouco
caro data vermibus
caro data vermibus







ao Conrado

dos cães

histórias de meu psiquiatra preferido







tínhamos mais coisas em comum do que coisas

que nos separassem, essas atingiam, porém,

mais fundo que aquelas. o dotô sabia que os

cães se comunicavam daquele jeito, eu também

sabia. deixou isso claríssimo quando quis

explicar, para que eu não temesse nem estranhasse,

que, aquele alarido todo de latidos e uivos era

simplesmente uma conversa, e que, eu, embora

não latisse, tinha a honra, e que honra, de participar

de colóquios assim...

terça-feira, agosto 04, 2009

Na Terra dos Sedentos





Nada Verde


Ao lado dos Estados Unidos da América e do Japão, a Alemanha tem o maior consumo de água per cápita. Segundo a organização mundial ambientalista WWF, cada alemão consome 25 banheiras de água por dia. Um dos muitos motivos é o consumo excessivo de café.

Por Silvia Liebrich




O consumode água dos alemães é muito maior do que era sabido. Mais ou menos a metade do consumo provém indiretamente das importações de alimentos e produtos industrializados. É o que diz um estudo da Organização Mundial do Meio Ambiente WWF, ainda não publicado e que agora o Suddeutsche Zeitung apresenta. Com isso, os alemães consomem três vezes mais água do que o Lago de Constança pode receber.

O café é, indiscutivelmente, a bebida preferida dos alemães. Estatisticamente cada alemão bebe em média 2,8 xícaras de café por dia, isso, na realidade, equivale a um consumo de água de 392 litros. Em princípio soa sem muita lógica, mas mesmo assim é verdade. Supondo que somada toda a quantidade de água, que, por exemplo, um país agrícola como o Brasil, precisaria para produzir a devida quantidade. Indiretamente é importado por ano quase dez bilhões cúbicos de água, somente para cobrir o consumo de café. Somando todos os produtos industrializados os alemães consomem 160 bilhões cúbicos de água.

Ainda que o consumo de água dos alemães vem caindo nos últimos anos (cada pessoa consome 124 litros por dia, há duas décadas eram 144 litros) “Mas o consumo real diário deixa uma pegada aquática de 5288 litros por pessoa, o que dá para encher 25 banheiras” diz o especialista em água do WWF Martin Geiger. A Alemanha, que é tida como uma das nações mais ricas em água no mundo, pertence, juntamente com os Estados Unidos e o Japão, aos maiores esbanjadores de água. Isso também foi mostrado, entre outros, pela Unesco, em uma pesquisa feita em 2004, na qual foram incluídos os maiores Exportadores e importadores de água.


O Problema das Exportações


O Estudo, que será apresentado oficialmente pela Organização WWF, nesta segunda-feira dia 03 de agosto, fará, pela primeira vez, uma análise completa das “pegadas aquáticas” que a Alemanha tem deixado pelo mundo todo. Uma equação que não leva em conta somente o consumo direto. Ela também abrange a quantidade de água que é usada nos países exportadores de bens de consumo assim como produtos industrializados que são vendidos por aqui.

Segundo a WWF, cerca da metade da água consumida na Alemanha vem de produtos importados de países estrangeiros, com a tendência de elevação. Especialmente alarmante para a WWF é que, grande parte desses produtos é proveniente de países com falta crônica de água, como o caso da Espanha e da Turquia, o que acarreta conseqüências desastrosas, pois com isso a seca piora ainda mais. Por isso a WWF exige uma mudança conseqüente nas políticas de água européias que deve assegurar que com as canalizações de água doce não se permita baixar os níveis de água dos rios, do lençol freático e das regiões pantanosas, uma prática, aliás, que até agora não foi de maneira alguma observada.

Não somente a WWF, mas também a Organização das Nações Unidas e a Organização Mundial da Saúde, chamam a atenção para um consumo descontrolado de água. A Espanha sofre a cinco anos de um período continuado de seca. 80 por cento da água consumível existente é sugada pelos solos das plantações. A conseqüência dessa cultura exaustiva é a diminuição das reservas subterrâneas, rios que vem sempre se escasseando e aumentando a falta de água nas cidades grandes. Muitos outros países do mediterrâneo lutam também contra este problema, países que são os mais importantes exportadores de verduras, frutas e legumes para a Alemanha. Um exemplo é a Andaluzia, na Espanha. Região tida, não somente para a Europa, mas também para o mundo todo, como a maior produtora de morangos. Mais de 60.000 toneladas dessa fruta vermelha foi vendida para a Alemanha. Os altos números dessa produção seriam impensáveis sem a canalização artificial. Grande parte da água para isso utilizada provém de poços ilegais, os quais, segundo estimativas oficiais, ultrapassam as 1000 unidades, na cidade de Huelva.

Com isso, a Alemanha importa 1,8 bilhões cúbicos de água da Espanha e 1,9 bilhões cúbicos da Turquia. Mas a maior pegada aquática deixada pela Alemanha, com 5,7 bilhões cúbicos, está mesmo no Brasil, responsáveis por esses números são o café e a soja para a industria de rações, que são exportadas do Brasil para a Alemanha.

Segundo Geiger, mesmo sendo o Brasil o país mais rico em precipitações no mudo, “existe também, lá, uma crise no setor” argumenta o especialista da WWF. A poluição descontrolada dos rios seria a responsável, e tida como causa principal de doenças contagiosas.

A maioria da água consumida na Alemanha, direta ou indiretamente provém 74 por cento do setor agrário. O alto consumo de carne também aparece visivelmente. Mais de 50 bilhões cúbicos de água são consumidos, somente, através da pecuária. Com uma participação de 23 por cento vem a produção industrial, o consumo de água doméstico quase que não tem expressividade nenhuma, pois acarreta somente três por cento do consumo.



Artigo publicado no Suddeutsche Zeitung 02 de agosto de 2009

Tradução de João L. B. Penharvel (Confligerante)

domingo, junho 07, 2009

Grünzeug









falar da folha da alface,

de seu verde de geada leve
tornando o novo em maduro
de novo intento

me degrada a manhã
rude, me desbasta o barulho
áspero, me desanda o ânimo
oscilante
e o verde da hora do almoço
me enobrece, me emprenha

passei a rezar em segredo
escondido nos recôndidos demim
mesmo
adorar a virgem linda
e impune que
de seu altar me olha

e assim a palavra passa
e não tem nada a dizer
a razão não conta
a tristeza de um lado
desponta no suspiro
que para o lado outro
aponta
empurrada pelo verde gelado
e furtivo do alface



domingo, abril 26, 2009

desbaste


Seguir uma listinha guiadora, sei que não dá certo, a escrita para mim não segue normas, muito menos roteiro. Nem vou tentar.
Por intuição gostei sempre de Monteiro Lobato, não sei o motivo. Quando mais menino ouvi muito falar do livro O Escândalo do Petróleo, e de suas consequências para Lobato, consequências trágicas e ricas para a história. Ainda menino, não tendo em mãos o acima citado livro, tive em mãos O Poço de Visconde, notória versão de desabafo e inteligente incursão ao mundo da geologia e da geografia, passando por química, física e sei lá mais o que. Gostei do livrinho e o deixei guardado para mim, talvez no coração.
Não me aprofundei no assunto e nem no autor, como não me aprofundo em nada, também talvez por intuição. Gosto de ler e de tentar me entender, e isso já não é pouco trabalho. Larguei a escrita para o futuro, o que muito provavelmente não irá acontecer, ficarei nessas rasidades eternamente.
E nessas rasidades gostaria de lembrar a falta de reconhecimento devida a Lobato, senti, reescrevo, senti sempre uma sub-importância em relação a ele, como acontece geralmente com os escritores que se propõem a escrever para as crianças, e esses mesmos que os subestimam não entendem que o alvo são os adultos e os críticos, sempre mórbidos.
A falta de qualificação necessária a esse escritor foi muito usada, creio, para desqualificar também a sua tese do petróleo e a suas ramificações na sociedade brasileira. Foi tido como besta, ou visionário, leigo ou incientífico e o petróleo era motivo de chacota em alguns meios, acho.
Mas, o que pra mim é certo, foi que os especialistas fracassaram também nesta questão, os profissionais e os entendidos de plantão não acreditavam que o Brasil poderia vir a ser uma potência portadora de tecnologia de ponta no quesito energia.
O Querdenker Lobato peitou a todos, se comprometeu em vários níveis, se prejudicou em alguns sonhos mas deixou o legado da visão vinda de sua intuição.
O conhecimento pode vir da intuição, não devemos desprezá-la. A intuição vinda do conhecimento ilumina o profetismo. Lobato foi nesse sentido profeta.
Mas o conhecimento pode ser corrompido pelo seu meio, por seus próprios tutores, por motivações várias. A intuição não se corrompe, ela vem no máximo corrompida, e isso já é outra filosofia...

segunda-feira, abril 20, 2009

paralelo

uma lembrança, com permissão de Gi digestora
(brincadeiras de ir e vir de crianças)








uma vez brincamos de sermos um e outro em peles de diferentes sexos, eu brincava tão sério
como só uma criança pode brincar, você... você, de novo me escreveu, e se não fosse escrito por
você, que sei que sou eu ao escrever, choraria, choraria por não ter sido eu a escrever você.

E eis que você "me" fala:




"Choro de susto, por constatar uma dor que pouquíssimas vezes (e agora não me vem um exemplozinho sequer) se materializou na minha alma: arrependimento. Dor do não vivido, parando pra pensar, sempre foi algo estranho à minha natureza. Agora essa... eu, que sempre me repito a existência apenas do presente, da vida aqui, do “mundo bem diante do nariz”, eu, um grande arroto de frases feitas e fáceis, deixei de aproveitar abraços e sorrisos que me apareceram. Tudo por dúvidas que, no tempo certo, se dissiparam. Eu, tão jovem, ainda não aprendi a dar ouvidos de verdade àquele velho moribundo que vez e outra fala comigo, aquele sábio senhor que tantas vezes me aconselhou a colher o presente com as mãos enquanto o porvir espera por seu tempo de maturação"*

*
Gi, Metanóica

sexta-feira, abril 10, 2009

Pedro

(de um canto da estante)








Pedro estacou, estatelou. Pôs o telefone no gancho e calou-se mais ainda, sombrio.
Intranquilo, foi até o banheiro e se trancou. Passou a mão em volta do espelho como se o fosse ativar, ligá-lo. Viu sua imagem mais nítida do que nunca, tirou os óculos e concluiu estupefato que, sem eles, via bem melhor.
Notou que suas rugas estavam mais profundas. A pele mais flácida, os olhos tinham um brilho de vida que teimava em peitar o resto do corpo. Via também, aliás, que o resto do corpo não ia tão mal já que sua idade estava bem avançada. As mãos ainda ágeis. Os braços inteiros e flexíveis, os ombros caíam o normal. Era velho e digno e isso refletia na vida, no corpo.
Suas rugas do rosto contavam uma história bem sua, contavam o que os olhos tinham vivido.
Olhava a ruga profunda e via a desgraça da doença corroendo os homens, via a ambição, a intriga. Via a guerra. As marchas picotadas de 1917, um filme inconstante no passar. As epidemias a dizimar o que ainda sobrava do sopro podre dos combates covardes, todos.
Mais a diante a tirania contra as diferenças passava tremida ante a estridência demente dos discursos homófobos e incultos, a incivilização ardia em cada vagão que passava carregando a matéria humana prenhe ainda de vida e de esperanças rumo aos KZs e aos guetos. O soldado que apartava a mãe de sua criança querida, cara, mandando uma à câmara e outra ao léu, não era humano, ou o era demais.
As rugas contavam. E o padre excomungava, o bispo ralhando farto, a polícia batendo, intransigindo, o partido partindo ao meio uma nação que já não se encontrava.
Uma mulher apanhava do marido, uma criança era violentada, uma escola desensinava. Seus olhos tornaram-se púrpuros. A garganta lhe ardeu.
Pedro aconchegou a pistola no bolso interno do paletó, Sentia ainda aquela fascinação estranha por ela. Sua forma equilibrada e fria, seu perigo de serpente, o poder se seu cuspe venenoso de fogo.
Debaixo de uma árvore, que devia ser uma castanheira posicionou-a junto a fonte direita. Fez um esforço e tentou pensar pela última vez num amor. Porém o que nunca mais saiu de sua cabeça foi a imagem daquele cão, sentado...

terça-feira, abril 07, 2009

sehnsucht

de tempos de melancolia feliz







sinto falta do poema disforme que corria
amorfo das veias às unhas
das palavras de migalhas
vãs, outras cheirosas
que contorciam os cantos
da folha fedida que saia esmagada
da máquina velha de datilografia.
no i o pingo que era pingado
os acentos todos postos, assentados
tonificando, diferenciando
me mostrando a chique proparoxítona,
as palavras iam trote a trote
vergando, aprumando, tremendo
espirrando na parede ao lado
o som absorvido de alguma suíte
pinkfloydiana
tenho saudade do termo radical
da flexão irresponsável
que colava a bunda da moça que
passava na rua na menina
frágil dos meus olhos

terça-feira, fevereiro 10, 2009

ateus




Deixo com Saramago uma verdade bonita e lógica e é ele que fala por mim, hoje, aqui nesse espaço.







Ateus

By José Saramago
Enfrentemos os factos. Há anos (muitos já), o famoso teólogo alemão Hans Küng escreveu esta verdade: “As religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos uns dos outros”. Jamais se disse nada tão verdadeiro. Aqui não se nega (seria absurdo pensá-lo) o direito a adoptar cada um a religião que mais lhe apeteça, desde as mais conhecidas às menos frequentadas, a seguir os seus preceitos ou dogmas (quando os haja), nem sequer se questiona o recurso à fé enquanto justificação suprema e, por definição (como por demais sabemos), cerrada ao raciocínio mais elementar. É mesmo possível que a fé remova montanhas, não há informação de que tal tenha acontecido alguma vez, mas isso nada prova, dado que Deus nunca se dispôs a experimentar os seus poderes nesse tipo de operação geológica. O que, sim, sabemos é que as religiões, não só não aproximam os seres humanos, como vivem, elas, em estado de permanente inimizade mútua, apesar de todas as arengas pseudo-ecuménicas que as conveniências de uns e outros considerem proveitosas por ocasionais e passageiras razões de ordem táctica. As coisas são assim desde que o mundo é mundo e não se vê nenhum caminho por onde possam vir a mudar. Salvo a óbvia ideia de que o planeta seria muito mais pacífico se todos fôssemos ateus. Claro que, sendo a natureza humana isto que é, não nos faltariam outros motivos para todos os desacordos possíveis e imagináveis, mas ficaríamos livres dessa ideia infantil e ridícula de crer que o nosso deus é o melhor de quantos deuses andam por aí e de que o paraíso que nos espera é um hotel de cinco estrelas. E mais, creio que reinventaríamos a filosofia.

domingo, fevereiro 01, 2009

cadáver, revólver

cadáver, revólver

- as palavras que me fascinam, não pela força, mas pela beleza da forma falsa
da percepção ao interesse à fascinação ao ato de produzir o cadáver forma,
ou seja, abstrato na beleza, um produto concreto através de um objeto cuja forma
poética é semelhante à forma do produto, hein!
o como chegar à produção, mais, à percepção dessa forma.
qual o motivo do interesse nesta forma (exógena)
transfer- passagem por um tempo disforme
o eu falante interiorizante e ensimesmado
o humor (interrogação)
leva uma palavra forma à loucura, à psicopatia (interrogação)


o itálico corresponde à poiesis, então!

segunda-feira, janeiro 05, 2009

gewiss!

also, a literatura não tem mesmo
poder algum sobre a sociedade
mas wohl sobre o individuo,
das heisst, jawohl, auf die sociedade
ganz e cheio.