domingo, dezembro 28, 2008

pós túmulo (à morte de Richard Wright)







A alma do monstro

"Adeus Mister Chance: Com a morte do assustadoramente simpático tecladista Richard Wright, parou de bater, nesta segunda-feira 15 de setembro de 2008, o coração do Pink Floyd.

por Alexander Gorkow

Pode-se também, descordialmente, assim se exprimir em relação ao tamanho, ou à dimensão, de uma banda de Rock; que ela seja somente o tamanho de seus componentes.
Depois que Roger Waters deixou o monstro Pink Floyd em 1984 e se admirou com salas quase vazias em suas primeiras turnês solo, seu empresário lhe disse: "você acredita que o monstro que você gerou seja você mesmo, Roger. Mas o monstro já está maior que você!"
O dinossauro Pink Floyd, -que desde a morte de Richard Wright, em Londres, nunca mais será visto ou ouvido em um palco-, era elegante em suas cóleras e suas graciosidades, era acima de tudo,
very british. O amor de Rick Wright pelo jazz e pelos grandes compositores clássicos enriqueceu o bluesrock progressivo da banda sempre com cores suaves e de alguma forma vitorianas.
Foram harmonias de Rick Wright no Hammond, no mini-moog, depois no sintetizador digital Kurzweil, e o mais belo, junto ao piano de cauda que fizeram a diferença no código genético da música do Pink Floyd e, talvez, do próprio Pink Floyd em si.
Uma tão atraente mistura de violência, humildade e sarcasmo não foi mais alcançada por seus epígonos, em comparação, Radiohead aparece muito choroso, Coldplay nitidamente pateta (patético), e muitos outros permaneceram sem alvo, sem mira.
Boatos de que a banda iria se apresentar em sua composição pós Syd Barret provocaram uma super-arritmia no mercado, cada vez mais moribundo, da música. É de uma ironia negra e tipicamente artística que desde o dia de sua morte essa questão não será mais levantada, como Gilmour e Waters vão sair dessa, pois que, exatamente o mais quieto da sala caiu fora, é a questão.
Hoje em dia, as canções são feitas, na maioria da vezes, por nomes como Linda Perry, produzidas por Timbaland e então tocadas por computadores de emissoras de horror como a Rádio Bayern 3. Não é mais tão fácil entender que a soma de uma grupo eram os seu componentes que com muita paciência se sobrepuseram antes de se implodirem em Hybris.
Semelhante aos Beatles, seus componentes se dispuseram congenialmente: O nervoso Waters enchia músicas e textos com a agressiva auto-piedade que grandes canções necessitam: o segundo, cantor e guitarrista David Gilmour com sua voz quente e seus solos de fender mobilizadores que contribuíam para as tensões sensuais; baterista e humorista Nick Mason colava paralelamente sons de nossos dia-a-dias, do cinema, jatos de guerra, caixas registradoras e não em último plano, batidas de coração, que tanto finaliza como principia um épico do jovem (moderno) existencialismo: o amargamente cômico (bitterkomisch) The Dark Side of the Moon.
Então Richard Wright. Um homem de uma timidez explosiva, ele era o que George Harrison era para os Beatles, nem cabeça nem anca, mas sim, a alma do monstro, uma pessoa de simpatia assustadora e figura frágil, que ainda, como tecladista, na última turnê solo de David Gilmour em 2006, mais parecia um professor de literatura alienado, perdido no camarim, etericamente, procurando o que seria o número correto da casa perdida.
Falava-se com ele e tinha-se a impressão de que estava ali somente para dar uma olhadela atenciosa por trás da ribalta.
Wright estava sempre envolto em uma alienação à la Peter Sellers e nos últimos anos lembrava muito o tragicômico Mr. Chance de seu último filme, que lá fora, na rua, achava poder se defender de ataques de uma pessoa com o controle remoto de uma televisão.
Precisou também de um humor enorme para sobreviver (mesmo que ferido por dentro) à digladiação composta e imposta pelos dois animais líderes do bando, ou da banda, Gilmour e Waters. Mesmo assim ele se divertia vingando-se na escolha secreta, entre os componentes da banda, das canções de um Best-of-platte, dando a nota zero para as composições dos outros membros e dez para as suas, artimanha divertida e rebelde que seria logo descoberta.
Do mesmo modo que Mason e Waters, Wright também estudou arquitetura no início dos anos 60 na londrina Regent Street Politechnic, onde era escutado em seus espaços, entre outras coisas as grandes loucuras da música do Pink Floyd.
Quando em 1963 Waters quis roubar um cigarro de Richard Wright, danificando então o maço, aconteceu a primeira briga entre os dois, a qual, segundo Nick Mason, teria sido o big bang de todos os problemas de mal entendimento, que perduram até os dias de hoje.
Ninguém sofreu tanto como Wright, que depois da gravação de The Wall em 1980 foi expulso do grupo por Roger Waters, motivo: comportamento indevido e recebendo um contrato ridículo de músico autônomo.
Em canções como "
Wearing the inside out" Wright trabalhou pesadas depressões, e como, sozinho, era muito defensivo para a industria fonográfica, usufruiu da amizade do monolítico David Gilmour que emprestou sua muito bem sucedida última turnê, onde os dois apresentaram uma brilhante versão da mal avaliada "Echoes".
Coisas que, aliás, jamais poderão ser novamente gravadas, como aconteceu na noite de 2 de julho de 2005, quando Waters e Gilmour depois de 25 anos de brigas, selaram um acordo de paz durante a apresentação de quatro canções no Live 8 concert.
Pela última vez bateu forte o coração do "Dark Side" acima de meio bilhão de cabeças no Hyde Park, fazendo com que até mesmo Punks grisalhos chorassem como bebês.
O coração do Pink Floyd parou de bater nesta segunda-feira, 15 de setembro de 2008.
A última palavra dita no disco mais importante do Pink Floyd, foi pronunciada pelo porteiro da Abbey Road Studios em 1972 "Não existe um lado escuro da Lua, na verdade ela é totalmente escura"
Richard Wright faleceu com câncer aos 65 anos de idade."



Publicado no Sueddeusche Zeitung em 17 de setembro de 2008
traduzido do alemão por confligerante









Um comentário:

CGaldino disse...

Valeu pelo serviço de tradução, Jão!
Emocionante.