terça-feira, novembro 11, 2008

minha casa

escrito do passado que dá nó na garganta






A minha casa tem cachorrinhos sempre
e eu sou um menino, que da vida
não aceita nada que venha alheio a mim.
na minha casa tenho o meu mundo
meus papéis, algumas letras
já pregadas em seus cantos próprios.
tem uma árvore que é sacramento
um telhado que eu mesmo fiz,
tem pardais na minha casa.
e o menino brinca como um doido
sugando do nada o momento da vida.
na minha casa, atrás, tem um jardim
ou tinha, e é verde agora
com os antulhos grandes, todas as plantas
esverdeando seus femininos verdes.
a bananeirinha de jardim já deu seu
pêndulo, de tempo sem conta, pendão
de vermelhos gomos pendurados
como brincos a ornar os fundos da casa.

em cima da minha casa tem uma varanda
coberta por telhas pobres,
feitas, porém, com muito carinho
minha mãe estende as roupas lavadas
lá em cima
pois, o vento bate bondosamente nas roupas,
secando-as
e enquanto minha mãe estende as roupas
olha para onde ainda tem verde, ao longe
e fica lembrando do filho que está longe
e vem-lhe lágrimas do fundo da alma
a sair-lhe pelos olhos.

na minha casa tem tijolo, cimento e areia
que eu, menino, carreguei, misturei,
fiz massa e teci paredes de concreto e
também de puro sonho.
teci colunas com tijolinhos armei vigas
em ferro e pedra no concreto
colunas que eram pra ir às nuvens
mas calafrios e medos de menino senti,
deixei-as na altura comum das casas.
o reboco foi saindo de minhas mãos
parte à parte, camada à camada
como a pele e suas etapas
ou a vida, na forma das fases.
do chapisco forte e molhado ao reboco
sarrafeado com pedaço reto de pau
cortando menos, deixando assim
macia a massa para o carinho monótono
da desempenadeira
depois vem a espuma, cujo nome, filtro é,
tirando os grossos grãos de areia
o reboco fica impermeável e fino
pronto á tinta ou á cal.

e assim minha casa vai surgindo da casa, do sonho,
das brigas e das alegrias
minha casa tem latidos
pelo menos três diferentes, bravos de Seamus
às vezes mostram alegria e pedem o pouco da atenção
os educados de Margarida que só estridem em horas
certas e contra pessoas incertas
e os desengonçados e desafinados de Penélope,
a grega, que faz de sua alegria de ser, a filosofia
louca da casa. por isso ninguém a entende.

essa casa me deixaria anos contando cada dia,
mas não há motivos para isso, a não ser o do pranto
só quero lembrar de minha casa
onde moram meu pai, minha mãe, minha irmã, meu cunhado e
minha sobrinha.
e na memória dela

a eterna criança que se recusa a crescer, a vagar de canto a canto,
porta a porta, céu a céu. e de novo tirar alguma folha amarela
da bananeirinha de jardim que está ficando linda
que só vendo.

Um comentário:

CGaldino disse...

Emocionante de mais! Estive por lá no tempo em que lia! Seamus esbravejando e Margarida acolhendo (convivência canis-persona-dualística). É jão, casas... fontes de histórias, pensamentos,emoções. Lá estivemos, lá viveram... no pensamento, mantém os que partiram. Acho que por estas coisas somos de lá, de algumas daquelas casas, da casa. Poderíamos chamar esta de uma Obra de engenharia civil, não fosse a força dos sentimentos que carregam as letras que tens!

Grande abraço!