terça-feira, novembro 18, 2008

assim ou assado





parodiando ou recontando o sabido, era uma vez um cara, um tal Narciso, que todos os dias ou todo o momento possível se refestelava a adorar uma imagem que vinha de dentro da água. voltava e lá estava ela, do mesmo modo, agora impávida
, seu dedo tocava a imagem e esta se retorcia em fuga, acalmando a escura água, acalmava a imagem e mais linda e nítida ficava.
assim foi e o tempo passou áspero e turvo, macio e claro, até que, depois de muito tempo, depois de ter surgido a paixão e o amor por aquela imagem, depois de ter sofrido pelo impalpável e pelo inefável, depois de chorar vendo a magnífica imagem chorando, recobrou o pensamento pouco que sobrava, somou-o à loucura e a ansiedade da paixão e do amor e não resistindo a furtiva figura inalcansável, tombou nu imagem a dentro, se terminando, se esvaindo de vida, se esbaldando de prazer e de horror.



mas existem os outros, que não entendem as alegorias, que precisam das coisas planas, que desentendem a vida. era uma vez uma moça, linda, bem formada, um dia descobriu um espelho, como se vê, o plano, o objetivo não brilha. o espelho refletia ela mesma, e ela sabia, era orgulhosa, se apaixonava com ela mesma, era apaixonada consigo e com sua beleza. era orgulho mórbido, e fez com que os seus valores se fixassem em sua beleza e suas posses, suas posses vieram da posse de sua beleza, assim seu poder.
um dia descobriu uma manchinha em algum ponto visível do corpo, apavorou-se, enlouquece-se, desentendeu-se mais ainda da vida. problemas vieram, e muitos, tomou remédios, muitos remédios, inlucidou-se.
não deu uma cabeçada no espelho, e não vazou a jugular com afiado caco de vidro colorido. não, apenas decidiu-se por uma cirurgia corretiva, plástica, -la, não correu bem, teve complicações sérias, foi internada urgentemente e logo teve de ser transferida para a UTI, CTI e o diabo que o parta. em suma, morreu. deixando saudades e não saudades.

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