terça-feira, dezembro 25, 2007

feeling

de que tempo?





da necessidade de fazer vazar a poesia
dos poros
de transformar o cinza feio do céu
em palavra boa
de misturar ao impossível uma tonalidade
esbelta sei lá de que
folhear o dicionário à procura do
inefável
da palavra sem som e sem letras
de transgredir o mundo só pela
beleza de ser transgressor
inculcar, balançar
sentir no danado do coração
uma fogueira do tamanho de uma
cabeça de alfinete e ao mesmo
tempo um avião pousando
dentro do meu estômago
avião sem origem
avião generalizado
a fragrância do vulto da vodka
esbarrando nas paredes do pulmão
a garganta ardendo de uma paixão
esquisita
de uma loira qualquer
em pé em qualquer esquina antipática e
suja

segunda-feira, dezembro 17, 2007

der rauch

Der Rauch





Das kleine Haus unter Bäumen am See
Vom Dach steigt Rauch
Fehlte er
Wie Trostlos dann wären
Haus, Bäume und See

Berthold Brecht



A fumaça


A casinha sob árvores ao lago
do telhado a fumaça sobe
sem a qual
como seriam inconsoláveis
casa, árvores e lago

Livre tradução de confligerante



Para Glaura

domingo, setembro 16, 2007

proparoxismo

1
cérebro
mesencéfalo
córtex
cíngulo
encéfalo
tálamo
córtice
colículo
a hipótese
prosencéfalo
monoaminérgico
colinérgico
hipotálamo
neuroanatômico
sômato-sensitivo
imagético
não-linguístico
a consciência é proparoxítona
2
isso prova que a consciência central tem suas bases
na narrativa não verbal e imagética¹
3
se a consciência central dependesse da linguagem aquela não
seria proparoxítona
4
o proparoxismo é brasileiro, desculpem-me os portugueses
¹ António Damásio

segunda-feira, julho 30, 2007

demonologia

A verdade, verdade, palavra triste, é que a "elite" (classe média), que gosta de tripudiar de Lula por causa do português brasileiro, por causa do jeito de homem simples e sensível.
Da oriunda pobreza. Por não ser doutor em nada que suas escolas ensinam,
tem ódio de classe a Lula.
Tem ódio, simplesmente.
Entre os pecados da elite, estão os sete capitais.
A elite é:
Iracunda, Soberba, Gananciosa ou avarenta,
usa da luxúria em seus saraus milionários e quando vende suas filhas aos filhos de seus pares, vaidosa, gulosa (de poder e outras coisinhas mais)
e para não ficar de fora, a preguiça, que tentam jogar nos colos do povo brasileiro.
Sem falar nos pecados de Evagrius, que são além desses, a inveja e a melancolia de não ser mais governo.
Se fizermos aquela comparação feita por Binsfeld no século XVI vamos ter de falar que essa tal elite anda em lados maus e seus demônios são:
Asmodeus para Luxúria,
Belzebu para a Gula,
Mammon para a Avareza (de quem não quer dividir o que tem),
Belphegor para preguiça,
Satã para a ira,
Leviatã para Inveja
e Lúcifer para a vaidade ou o orgulho.
Arrematando então isso tudo, nota-se em nossa elite aquele religiosismo forte,
sulista. Católico de TFP.
Já disse o outro, o evangelista, ser mais fácil passar um camelo pelo fundo da agulha
do que um rico no caso um membro da elite, no caso também midiática e golpista, entrar no reino dos céus.
Essa ira da elite em relação a Lula, esse ódio é a influência direta de Satã, que,
ludibriando-os, alojou-se em seu coração.

domingo, julho 15, 2007

parâmetro

não existe! o que não existe são as coincidências de Dostojewski.
as coincidências de Dostojewski e suas fofocas

dalegria

escrito de tempos difíceis




Mas se eu falasse da alegria
mais sério você me levaria?
qual!? Nisso eu bem que duvidaria
alegria! coisa de outras sertanias
de certo que está
muito bem longe dessas capitanias
vestidas de ouros e outras alforrias.
Mas veja, melhor, veria
se você pegasse essa tal alegria
essa mesmo que da minha boca se cria
se modela, forma, se procria
se entende, se supõe, se constrangeria
no assunto geral do nosso dia.
Essa tal alegria, alegriazinha
pode parecer a você ínfima, pequenininha
de tão calada, muda, que se tinha
sob as cinzas da decrépita fornalha vida,
mas sopre-a, e bem devagar ressuscitaria
e aí, você nada melhor sentiria.
Como é quente e aconchegante essa alegria minha!

sábado, junho 02, 2007

sils-maria

para minha mãe




Hier sass ich, wartend, wartend, - doch auf nichts,
jenseits von Gut und Böse, bald des Lichts
Geniessend, bald des Schatten, ganz nur Spiel,
Ganz See, ganz Mittag, ganz Zeit ohne Ziel.
Da, plötzlich, Freundin! wurde eins zu zwei -
- Und Zarathustra ging an mir vorbei...



sentado aqui, esperando, esperando por nada
além do bem e do mal, a luz, logo, gozava
logo a sombra, somente brinco com algo
somente lago, só meio dia, só tempo sem alvo.
Então, derrepentemente, amiga, de um são dois
- E Zaratustra rápido por mim se foi...


Tradução livre de Sils-Maria de Friedrich Nietzsche
Confligerante

Frederico

de um canto da estante




a porta se escancara rapidamente em meu nariz, o sangue jorra estantaneamente, levo as costas da mão ao nariz afim de estancar o sangue.
Frederico não sabia de minha presença, abrira a porta com força e talvez raiva.
Fico atrás dele e da porta entre-meio aberta, observando seus movimentos e seu rompante. Mesmo com a janela embaçada pelo frio soprado violentamente pelo vento ele fica a observar a fundura do penhasco e o verde do musgo, vivo e úmido.
Suas mãos nas costas não param, entrelaçam os dedos, cruzam os dedos, se apertam.
Seguram a borda do casacão na região da cintura. Ao mesmo tempo que tampam a boca para receber o bafo quente que as aquecem, se esfregam com força.
Frederico parece cego, seus olhos pequenos estão vermelhos, lacrimejam constantemente, talvez estejam chorando aos poucos.
Passa a mão no bigode e começa a querer sair novamente. É inquieto. Parece uma pilha.
De repente começa a sussurrar, ewige wiederkunft, ewige wiederkunft.
Quando vejo já saiu, batendo a porta.
Olho-o a se distanciar, parece que Frederico saltita, dança ou quem sabe, levita.

quinta-feira, abril 05, 2007

mãos de Eurídice

do tempo de saudade




me falaram das mãos de Eurídice
e me lembrei d'alguma amizade
que muito cedo se foi
deslembrei-me do teclado
esboço linhas à mão
e tinta azul

as mãos de Eurídice, retintas,
tocavam na ferida ou no
dilacero
pensavam o amor da gente
que junto com a boca
sopravam encantos e ervas-de-são-joão
curavam as chagas, os roxos
calavam as dores dos amores

as mãos de Eurídice faziam as voltas
de meus suspiros
percorriam, estiradas, o horizonte
os olhos seguiam a procurar o
coração da moça

as mãos suas tinham o macio
do veludo do lírio
as mãos de Eurídice tinham a
tez da rosa
e seu justo perfume

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

religion

Será um conjunto de verdades artificiais
com o poder avassalador de artificializar
nossas verdades convencionais e subjetivas?

terça-feira, fevereiro 13, 2007

dissabor

escrito de tempos amargos




sabe da (à) dor da espera
(saber de gosto, de sabor)
sabe do (ao)
momento que não vem
sabe da (à) esperança

e a
dor da separação,
sabe (talvez uma interrogação)
que faz um canto
e
dói tanto
(exclamação)

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

mulher leopardo

escrito de tempos doces



antes que eu me esqueça,
aquele olhar de mulher leopardo
que fere, aquece e finca

que translucidando em raio
do oculto do espelho
me força o peito
me mexe a alma
afrouxa o corpo

rezo praquele olhar
da gata rebelde
que me olha e me consola
que hoje,
antes que eu me esqueça,
me amava,
o olhar de mulher leopardo

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Ich's

escrito atemporal




multifacetado
e eis que no dilacero apareço
em facetas de nuances escancaradas
cada qual com seu brilho
sua cor e dor
apartir de uma luz ou de um bolor

esgualepado em idas e ventos
no desentender matutino
sempre cretino e atento
qual cachorro com a cabeça em cima
da soleira da porta da cozinha

saio a procurar o um
como o tolo que procura outro tolo,
eu, que de dentro, em riste lápide
aquele, atrás de um deus errante
ignoro suposto brilhante

que um, que único, que nada
que desejo, quais traumas
a água está quase quieta
minha cara vem e vai em ondas
são várias, as caras outras
tantas