sábado, julho 29, 2006

a arte e a obra

histórias de meu psiquiatra preferido




Algumas observações interessantes sobre a arte, e óbvias, é claro, estão ultimamente diante de meus olhos.
Ao me perguntar sobre a arte, tenho logo a imagem da perfeição pairando sobre minhas sobrancelhas, a arte é por si a perfeição transfigurada, pois que é fruto do subjetivismo mais puro do artista. Daí a impossibilidade de me ver como crítico de qualquer tipo de arte, sejam elas plástica, visual, literária ou sejam lá qual forem. Na minha concepção a arte é a obra querida do artista. Não podendo ser criticada devido ao sentimento subjetivo do autor que não deve ser tocado, pois, é produto visceral da emoção e da percepção.
O artista, é claro, significa todo aquele habitat, todo aquele fundo cultural e social em que se desloca, sendo a arte, por ele criada, somente um reflexo obscuro ou opaco desse deslocamento.
A arte então é a representação da “alma” do artista, e muito inferior a ela. O artista que é questão, que tem a importância, e não a sua obra.
Desemboco então em outro nível, bruscamente me vejo diante de pessoas, que têm dinheiro, e que estão construindo suas casas, suas mansões. Não abrem mão do luxo e querem a perfeição a todo custo, querem morar, então, numa obra de arte, com todo conforto e gemütlichkeit que sejam possíveis. É um direito que têm como sagrado. Vejo-me no meio da obra, cercado de pedreiros, materiais poeirentos, colas que grudam e que sujam, lama que deixa a gente de saco cheio, cerâmicas, azulejos, tintas, vernizes e etc. E na chegada do doutor ouço as críticas, um ralinho que está mal assentado, um degrau da escada que está um pouco mais alto que o querido, uma baguncinha aqui e outra ali, sinal evidente de que há vida na obra.
Aí tenho que ouvir as reclamações, pedreiro nenhum presta, não sabem fazer nada direito e isso e aquilo.
Ao pensar na arte penso no artista e no seu mundo maravilhoso, contornado de sofrimentos e de prazeres, a arte é um ofício “aprendido” a ferro e fogo e modelado em bigornas de cultura que pesam horrores nos ombros do artista.
Ao pensar na obra penso no pedreiro, as pessoas só lembram dos pedreiros, dos serventes, mestre de obras quando deles estão precisando. Mas não se preocupam com sua cultura, sua formação, sua vida, sua falta de habitação. Não pensam, digo dos doutores que vivem num mundo bem distante do mundo do construtor, que o pedreiro não teve uma formação, e que ele antes era servente, que teve de aprender tudo na raça, que ele é o fruto de um ambiente hostil, de fome, de falta de escola e de distorção de valores. E exatamente destes cobram a perfeição.
O dilema acontece agora, querem desses indivíduos que constroem casas, as prestezas e as habilidades do artista, querem uma habitação luxuosa, agradável, bonita, aconchegante e sobretudo perfeita (ou seja: artística) saídas das mão dos parias que não tiveram outra chance no mundo senão a de construtores e trabalhadores braçais. Ignorantes “fazedores” de massa.
Ponho-me então a pensar, e a perplexidade me persegue.

quarta-feira, julho 26, 2006

inferno

Para Glaura



escrito de tempo de dor



Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
che la diritta via era smarrita
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!

Dante



e o arco se dobra e o fio timbra
uma dor profunda
os dedos sangram e o punho vibra em
ásperas veias
um gosto amargo na garganta
o timbre em dó
a garganta em nó
a flecha em rispe
o golpe e o furo
no porcelanato branco do chão
rastos rubros
escorregados