sexta-feira, dezembro 15, 2006

kalundu kakulê 2

histórias de meu psiquiatra preferido



será o pior cego aquele que quer ver,
e a juntar símbolos um a um
o pior analfabeto, o que quer ler.
em imagens o kakulê do kalundu,

quiça um dia, viajo ao passado
e numa fita cassete demo
gravo de uma estrela distante e velha
o som desse kalundu de kakulê.

quinta-feira, novembro 30, 2006

receita de pesto de Mino Carta

"Do verbo pestare

Respondo ao leitor João L. B. Penharvel. Pesto vem do verbo pestare, socar, pisar. Instrumento indispensável, o pilão de pedra ou mármore, de bom tamanho. Quer dizer, bem maior do que o pilãozinho onde, nas cozinhas brasileiras, soca-se implacavelmente o alho. Trata-se de adicionar o braço, potente, para reduzir à pasta homogênea um punhado abundante de manjericão (penso em quatro pessoas a serem servidas), 50 gramas de parmigiano reggiano, 50 gramas de pecorino, um punhado de pinois (na falta de pinois, nozes). Alho? Nada, ou, se tanto, meio dente. Acrescente um pouco de água, se preciso, para obter homogeneização de pasta. Falei em braço, digo, do pilão, conectado ao seu, por meio de mão de ferro. Três colheres de azeite. Em lugar de spaghetti ou tagliatelle, use linguine. Que las hay, las hay. Importadas. Aos domingos, sugiro o pesto avvantagé, que acrescenta à massa batatas cozidas em cubinhos e vagens. Coisa de pobre que se esbalda em dia de festa. Permita uma dúvida, quando o amigo fala em ervas refere-se a manjericão? Se for, a dúvida permanece. O manjericão do trópico não é o de Gênova.

enviada por mino"

terça-feira, novembro 28, 2006

orgulho 2°

será que a idade nos faz mesmo corujas?
Hoje foi a vez de minha filha de quatro anos me dar orgulho, não tenho vergonha de afirmar isso, ora pois, que a pequena começa a cantar uma coisa bonita e que me parecia, mesmo que de longe, conhecida. Cantava bonito e afinado:


"Tão longe de mim, tão distante.
Onde irá, onde irá teu pensamento!"

e não é que ela cantava Quem Sabe?! de Carlos Gomes.
É ou não é pra ser coruja...

segunda-feira, novembro 27, 2006

definições

é um orgulho escutar de uma filha de oito anos de idade
a seguinte definição:

"Eu não acredito nem no demônio nem em deus, mas tem muita gente que acredita, quase todo mundo, pode ser que tem pode ser que não tem, pra mim não tem.
É uma lenda que inventaram, e contaram tão bem contada que as pessoas acreditam sem nem nunca terem visto."

Sara B. P.

domingo, novembro 26, 2006

transverso

Uma vez brincamos de sermos
um e outro em peles
de diferentes sexos,
eu brincando tão sério
como só criança a brincar,
tu...
tu, de novo escreveste-me,
e se não fosse escrito por ti,
que sei que sou eu que escrevi,
choraria,
choraria por não ter sido eu,
e escrever-te-ia.


à digestora, com saudades

terça-feira, novembro 21, 2006

o poema que ela não leu

(escrito de bons tempos)



uma pluma pairava vez prum lado
vez proutro
e sempre inerte dentro de si
psiu! nem sentimento viu!
se aproximava de mim
como serpente e guiso só
o cheiro talequal flor do campo

deslizou de abertos braços e mais
pairava sim, ainda
imagem onomatopeizada 

de um sentimento de lá

a pluma corporificada
o cheiro qual olhar agora
os olhos quinda verde eram
o cheiro quindera dela

num momento sem "paura"
um coração petrificado
parado eu e quieto
o abraço gostoso
o beijo que não teve mais ainda
o delírio tímido demais
o mistério ido no silêncio tido
reencontrado

quinta-feira, novembro 16, 2006

regalados

histórias de meu psiquiatra preferido




sucede-se que o General Abreu e Lima vai ser homenageado com o nome de uma refinaria no Nordeste.
Abreu e Lima foi um combatente ao lado de Simon Bolívar, um general brasileiro numa revolução sul-americana, e uma daquelas.

- não começa! o cara vai homenagear vocês (disse o interlocutor)
- patacoada, patacoada, patacoada (disparou a metralhadora do Dotô)
- puxa, isso é uma honra e você fica assim (continua o interlocutor)
- patacoada, o Abreu e Lima foi o maior e o primeiro socialista brasileiro, patacoada e tal.
- então! o homem vai fazer justiça a ele, mesmo que agor...
- patacoada, não precisa de homenagem porra nenhuma, patacoada
- deixa pra lá (desiste o interlocutor)

será o Dotô também um regalado?

sexta-feira, novembro 10, 2006

alberto

(de um canto da estante)





Alberto vestia aquele sobretudo cinza surrado, sentava encurvado sobre a mesa pequena do café que ficava em frente à redação.
Na frente da testa, o jornaleco mixo, e as notícias de algum distúrbio em Algéria, algum embate entre os árabes e os franceses, sem falar no desastre diário que era redigido sobre a guerra que estava assolando o continente.
Alberto tinha mais uns livros numa sacola, uma agenda e mastigava uma maçã, pensando nas sementes suculentas da romã.
Seu semblante ficou escuro, parece que seu pai voltou a afligi-lo, mas o que o afligia mesmo era a lembrança de sua querida mãe, que há tempos não via.
A manhã estava fria, o corpo estava esquentado e pesado, cansado, a respiração difícil e a tosse impertinente enrubescia o lenço de algodão.
Ele e Castor tinham muito mais coisas em comum do que a simples antipatia que sentiam pelo General de Gaulle.

kalundu kakulê

histórias de meu psiquiatra preferido




- buceta, buceta, buceta, esta casa é uma buceta, não aguento mais...
- peixe, calma, lembre-se, você é um psiquiatra...
- buceta, eu não sou porra nenhuma, esta casa do caralho
- calma, não adianta...
- Jorge, tem um martelo aí?
- não, Doutor.
- buceta, buceta...
O médico olha para o ambiente a procura de um objeto pesado
de repente vê a válvula de ferro da cuba encima da pia de mármore travertino
com gosto pega-a e bate freneticamente na cuba de louça...

os estilhaços ficaram para Jorge limpar.

segunda-feira, outubro 23, 2006

peleja contra Jornalista Bocudo da TV

e eis que resolvi discutir com certo jornalista-comentarista reacionário ao extremo de uma rede de tv aqui da província, e deu no que deu...




De: Confligerante
Data: 08/29/06 21:09:53
Para: Jornalista Bocudo
Assunto: RECOMENDAÇÃO

Avisem a este Jornalista Bocudo que seu programa deveria se chamar “Ponto na Vista” e não Ponto de Vista, pois, há uma certa cegueira que o impede de ver as coisas como elas são.
Recomendaria a ele a leitura do Livro, O Ensaio Sobre a Cegueira de Saramago

Cordialmente
Confligerante




Jornalista Bocudo escreveu:
...E EU LHE RECOMENDO VÁRIOS OUTROS LIVROS, MAS NÃO DE COMUNISTAS CAOLHOS E MAL INTENCIONADOS COMO SARAMAGO, COM QUEM VOCÊ SIMPATIZA E, SIM, DE AUTORES EQUILIBRADOS, ENTRE ELES GEORGE ORWELL - A REVOLUÇÃO DOS BICHOS. TENTE ESTUDAR A ESSÊNCIA DO LIBERALISMO E PROCURE SE AFASTAR DA INFLUÊNCIA DA MÁFIA DE BRASÍLIA LIDERADA PELO MAIOR LADRÃO DO PAÍS - SEGUNDO SENADORES DENUNCIAM DA TRIBUNA DO SENADO - LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA. CERTAMENTE O MEU "PONTO DE VISTA" DEVE ESTAR "FURADO" MESMO E O SEU, SIM, DEVE ESTAR CERTO JUNTO AOS DELÚBIOS - AOS ZÉ DIRCEU - AOS GENOINOS - AOS VALÉRIOS - AOS "LAND ROVER" - AOS DÓLARES DAS CUECAS - AO FILHO DE LULA QUE SEGUIU O PAI E SE CORROMPEU POR CINCO MILHÕES E OUTROS HABITANTES DA SARGETA NA QUAL ESTÁ MONTADO O ESQUEMA DO PT.

PASSE BEM

De: Confligerante
Data: 08/29/06 21:09:53
Para: Jornalista Bocudo
Assunto: Re: RECOMENDAÇÃO

Primeiro eu não sou surdo e nem cego (o tamanho da letra é algo impressionante, sinal de quem não está acostumado com o diálogo) e nem com críticas, e segundo acho que pela resposta que o senhor me deu há um certo exagero e muito preconceito, falta de educação e ódio, o que não é bom nem para a democracia e muito menos para o jornalismo, o escritor caolho é prêmio Nobel de literatura e o maior escritor vivo da língua portuguesa (merecia mais respeito, mas...), pena não poder conversar com o senhor sobre a obra de um Nobel ou sobre a política real, Realpolitik. Seria interessante poder conversar com o senhor sobre Thomas Hobbes e Smith, Furtado e Stiglitz. Bobbio ou Bertrand Russel. Tem o Boaventura S. Santos e também Chomsky, ou Tariq Ali. E também há sinais de que o liberalismo não é lá aquela coisa toda. Olhe o mundo em seu redor. Quem lhe disse que eu era do PT? De onde o senhor me conhece? É assim que um "formador de opinião" trata um telespectador que com a crítica tenta fazer algo pelo seu país? Algo pelo quarto poder, que é o jornalismo? Cadê o equilíbrio que é um dever do Jornalismo verdadeiro. George Orwell está também em minha estante, e há controvérsias sobre este livro citado pelo senhor, existem as entrelinhas... E existe a conjuntura temporal...
Ser martelo é para quem pode intelectualmente, mas poder com muita força e conhecimento, e sem preconceito, como Nietzsche o era, o resto é demagogia e mau jornalismo.
Sinto muito pela "arrogância" mas essa salivação toda só é possível aqui na roça, numa cidade grande pegaria até mal para a emissora.
Lembre-se, o senhor, a verdade não tem dono e ai de quem tenta monopolizá-la. Cai no ridículo.

Cordialmente,
Confligerante



Jornalista Bocudo escreveu:

Simplesmente em minha resposta à sua insultante reação, lhe devolvi a mesma moeda...
Quanto ao seu idolatrado premio Nobel de literatura, o Nobel não purga seu carater corrosivo e decomposto que é a característica do pernicioso "espírito comunista".
Controvérsias sobre a "revolução dos bichos" ? Que controvérsia pode ser gerada por uma lenda ?
Quem me disse que voce era do PT ? Ora...Ora...quando lhe acusei de ser petista ? A que altura de meu texto ?
Outro esclarecimento: Não seja "maria vai com as outras" ao me apelidar de "formador de opinião"...Existe na nomenclatura jornalística "enes" rótulos para me enquadrar e eu me enquadro no de comentarista que expõe idéias para serem avaliadas, aceitas ou recusadas, se isso não foi percebido, lastimo muito, mas não posso pretender ser entendido por quem associa-se a nomes literatos ao invés de procurar ter suas próprias idéias. Veja, Nietzsche, citado em sua resposta pastosa, maldosa e prepotente: É um dos meus pensadores de cabeceira, todavia, jamais trocaria minhas próprias idéias - VEJA BEM - MINHAS PRÓPRIAS IDÉIAS POR TODOS OS PREMIOS NOBEL DO MUNDO, ou mesmo por admiráveis pensadores. Se bem que isso é atitude para quem tem idéias, no seu caso, pela lista de nomes propostos à discussão, creio que estaria eu em inferioridade num cara-a-cara, pois colocaria as minhas sem a contra partida das suas, a não ser de pensadores de sua lista que estão ao alcance de qualquer inquilino de curso primário.
Quanto a "salivação da roça", saiba que embora tenha em minha carteira profissional nomes de grandes empresas nacionais de comunicação das quais saí por minha livre vontade (posso mostra-la se desejar) afirmo: feliz do profissional que possa transmitir suas idéias a uma população - da roça como você tenta insulta-la - e ser por ela aplaudido, citado, discutido e cumprimentado ao longo de dezenove anos ininterruptos no ar pela televisão Tarobá", ao invés de ser pau mandado, com "idéias moldadas pelos patrões". A propósito ao tentar ser autêntico, Boris Casoy acabou sendo demolido pela ditadura da esquerda abominável que caracteriza o governo Lula que, por sua vez, eliminou desse mister um profissional daquele gabarito.
Cabe-me corrigi-lo também nessa tentativa de emplacar tolices pré moldadas como essa estultice de "A VERDADE NÃO TEM DONO". Tem dono, sim...aliás, tem DONA...É ELA A PRÓPRIA VERDADE. (não procure em seus pensadores ou em catalogos de almanaque o autor desse conceito...é de minha lavra)
Por fim, meu trabalho, reitero, não "pega mal para a Emissora e nem cai no ridículo", ao contrário, se desejar os índices de audiência que registram o assentimento da opinião pública poderei passá-los para atestar que só mesmo as mediocridades é que me detestam, o que não me causa nenhum efeito por serem mediocridades, e espero não venham elas contar com sua inclusão.

CORDIALMENTE - Jornalista Bocudo





De: Confligerante
Data: 08/30/06 13:00:00
Para: Jornalista Bocudo
Assunto: Re: Res: Re: RECOMENDAÇÃO

Para se ter idéias próprias, é necessário liberdade alegria e muito conhecimento, muita leitura, não basta ter somente opinião. E ler os jornalões e a veja santa semanal.
É necessário, e isso em qualquer país do mundo uma fundamentação pluralista e sem preconceitos, e o senhor tem preconceitos, parece, através de seu escrito, escritos meio mcartistas, isso já saiu de moda há muito tempo, que há um equívoco e muita ignorância em relação a taxar de comunista ou sei lá o que, o que não vem de encontro ao seu pensamento. A raiva que o senhor transmite é belicista. Nos países desenvolvidos ser de esquerda não é nenhum crime e nem feio, muito menos ler um "comunista", numa democracia se aceita tanto ser de esquerda como de direita e governa-se assim também, sem trauma e sem rancor.
Não chamei ninguém de roceiro, de novo as entrelinhas lhe são invisíveis, roceiro é o ambiente do pensamento que o senhor propõe, ou melhor, provinciano. E ser aplaudido pelo provincianismo não é lá grandes coisas.
Nas entrelinhas de seu e-mail com letras enormes vi, logicamente, acostumado que sou com leitura, que fui chamado de petista sim. (as entrelinhas existem mesmo quando não aparecem) E o senhor sabe muito bem disto, pois, não é ignorante.
Não tenha medo da literatura dos "distorcidos", a literatura é a arte mais bela que existe, pois exige mais que a visão, e parece que o senhor não conhece mesmo o velho José Saramago, ex-ferreiro, cronista e editorialista.
Sem tentar lhe impor nada, isso também seria impossível, só pensei que estava recomendando algo que é belo. Se o senhor não for formador de opinião deveria parar de falar na televisão, pois a mídia serve sim para formar opinião.
Novamente tenho a sensação de o senhor não estar acostumado em ser criticado e nem em dialogar, isso pode se dever aos tantos anos de verborragia a torto e a direito.
Sou livre para usar as palavras da maneira que quiser e quando quiser, sem precisar ser, ai ai ai, maria-vai-com-as-outras, portanto, o senhor é um formador de opinião e sabe muito bem disso, senão não haveria público que o assistisse.
Bom fossem os meus pensadores de lista de inquilinos de curso primário, realmente lidos, o mundo seria outro.
O senhor vai ser muito mais entendido, e não seguido, por quem se associa aos literatos, e entender não significa concordar.
Não se preocupe, a sua inquisição quase diária continuará fazendo sucesso, as pessoas que não se associam aos literatos continuarão lhe vendo e aplaudindo, e é isto que vale.
O simples fato de o senhor ter "suas próprias idéias" é uma pérola, o senhor tem as idéias que foram formadas pelo tempo e que parecem bem sólidas, não correm o risco de mudar. Elas devem vir de algum lugar. Essa sua independência "ideária" me divertiu muito. Osmose? Parapsicologismo?
Conta outra, eu pelo menos admito que o que penso e o que idealizo é uma soma de pensamentos e idéias de homens que admiro muito. Nesse ponto sou honesto, mostre sua cor, isso é dignidade. Por isso minhas idéias não são sólidas e nem a última verdade.
A verdade ser da verdade, meio sem pé nem cabeça, mas... ainda mais num mundo tão plural, e como o seu escritor de cabeceira dizia, existe muito mais coisas entre o Bem e o Mal, outra recomendação minha?

Muito cordialmente
Confligerante





Jornalista Bocudo escreveu:
Infelizmente tentei estimular asas em você para ver se pelo menos tenta aprender a voar..mas...em vão. Quem como você se atreve a incursionar pela hermenêutica a bordo das "entre-linhas", além de associar uma leviandade à arrogância, estimula, sim, felicitar uma sociedade por - felizmente - não ser um árbitro de causas nobres. Enfim, se é sua vontade associar-se às mediocridades que me detestam, nada posso fazer...sinta-se à vontade e saiba que mesmo assim ainda posso contá-las nos dedos (as mediocridades que me detestam). E por último, se essa sua inveja ou frustração transformar-se em patológica, indico-lhe como terapêutica "morder o próprio calcanhar". Um "ex-desafeto" me confessou com humildade que depois de certo tempo conseguiu ele se curar assim...e passou a me admirar ao invés de destilar ódio - e interrompeu o fluxo de hormônios nocivos jogados na corrente sanguínea. Ele concluiu que me odiava por não reunir atributos a credencia-lo a estar onde eu estou.

Lembranças a família...




De: Confligerante
Data: 08/30/06 18:51:19
Para: Jornalista Bocudo
Assunto: Re: Res: Re: Res: Re: RECOMENDAÇÃO

Adorei a sua resposta, típica, aliás. Gostei de ser também enjaulado entre os medíocres, enfim meu lugar está salvo. Fico a imaginar quais asas um preconceituoso pode estimular, ou seja, a vida é bela, e eu, um pobre medíocre, pensei que poderia alar um jornalista comentarista, mas às vezes, depois de certa idade, é mesmo difícil se deparar com o novo e com ele estreitar relacionamento...
Eu não lhe detesto, eu não lhe odeio, eu simplesmente tentei, através da crítica, estimular uma mente madura, a talvez, rever alguns conceitos, pois, todos estão aptos a errar, eu pelo menos, mas acho que o senhor também. Talvez na velhice mais avançada, quando a sabedoria vem florescendo e rompendo bordas, o senhor se lembre de mim e sinta algum tipo de ternura.
Na falta de argumentação o diagnóstico? Sou doente, fácil demais!
Pobreza, será que lhe invejo? Outro clichê, idem
É feio ser tão imodesto, aliás, onde o senhor está?
No céu? Eu não ouso e nem necessito estar tão alto, prefiro os vales, os abismos, onde a beleza é desconsertante e a água alva e fresca.
Repito, não há frustração, não há inveja, só estou estimulando um cérebro que age como máquina, um cérebro que repete muito. Quero lhe ver sorrir, quero lhe ver vendo lados bons, quero menos juízes e mais coração.
Eu lhe amo, Maulo Parins e sei que o senhor pode muito mais do que isso que deixa transparecer. O rancor mata e a sua arrogância fere.
Não se preocupe comigo, ainda estou muito novo, sou apenas um pedreiro e não almejo refletores.
Ainda não entendi o por que das letras grandes, na linguagem cibernética significam alteração de ânimos, ou seja, gritos, mas não quero acreditar que seja isto...

Cordialmente
Confligerante




Jornalista Bocudo escreveu:
As letras grandes são para sugerir que "certas regras" não são por mim adotadas, haja vista que não me enquadro em estereótipos...
Quanto ao fato de você ser "um pedreiro"...hummmm ! Sei...certamente "um masson"...é o simbolo.
Acho que seria aconselhável parar com o pugilato verbal por aqui, pois estou notando que não se trata de combate individual...creio tratar-se de "uma comunidade"...Massom - (pedreiro...sei...)

Até mais.




De: Confligerante
Data: 08/31/06 12:24:00
Para: Jornalista Bocudo
Assunto: Re: Res: Re: Res: Re: Res: Re: RECOMENDAÇÃO

Se assim quiser, paro por aqui, não sou maçom, sou pedreiro de verdade, aquele que faz paredes, reboca-as e etc. Como disse, apenas um pedreiro e o combate é individual sim, nunca pertenci a nenhuma associação, mas então paremos. O resto, as entrelinhas, foram simplesmente mal interpretadas pelo senhor.
Não fui irônico ao dizer do amor, amo o ser humano e levo a sério o que ele diz.
Mesmo assim,
agradeço pelo sadio debate.
Cordialmente,
Confligerante


Jornalista Bocudo escreveu:
...e eu na verdade sou "servente"...nas horas vagas faço televisão.

De: Confligerante
Data: 08/31/06 12:24:00
Para: Jornalista Bocudo
Assunto: Re: Res: Re: Res: Re: Res: Re: Res: RECOMENDAÇÃO


desta vez não pude ler nas entrelinhas, me pegou... pois quando falo é sério, meu pedreiro é mesmo sem aspas

sábado, julho 29, 2006

a arte e a obra

histórias de meu psiquiatra preferido




Algumas observações interessantes sobre a arte, e óbvias, é claro, estão ultimamente diante de meus olhos.
Ao me perguntar sobre a arte, tenho logo a imagem da perfeição pairando sobre minhas sobrancelhas, a arte é por si a perfeição transfigurada, pois que é fruto do subjetivismo mais puro do artista. Daí a impossibilidade de me ver como crítico de qualquer tipo de arte, sejam elas plástica, visual, literária ou sejam lá qual forem. Na minha concepção a arte é a obra querida do artista. Não podendo ser criticada devido ao sentimento subjetivo do autor que não deve ser tocado, pois, é produto visceral da emoção e da percepção.
O artista, é claro, significa todo aquele habitat, todo aquele fundo cultural e social em que se desloca, sendo a arte, por ele criada, somente um reflexo obscuro ou opaco desse deslocamento.
A arte então é a representação da “alma” do artista, e muito inferior a ela. O artista que é questão, que tem a importância, e não a sua obra.
Desemboco então em outro nível, bruscamente me vejo diante de pessoas, que têm dinheiro, e que estão construindo suas casas, suas mansões. Não abrem mão do luxo e querem a perfeição a todo custo, querem morar, então, numa obra de arte, com todo conforto e gemütlichkeit que sejam possíveis. É um direito que têm como sagrado. Vejo-me no meio da obra, cercado de pedreiros, materiais poeirentos, colas que grudam e que sujam, lama que deixa a gente de saco cheio, cerâmicas, azulejos, tintas, vernizes e etc. E na chegada do doutor ouço as críticas, um ralinho que está mal assentado, um degrau da escada que está um pouco mais alto que o querido, uma baguncinha aqui e outra ali, sinal evidente de que há vida na obra.
Aí tenho que ouvir as reclamações, pedreiro nenhum presta, não sabem fazer nada direito e isso e aquilo.
Ao pensar na arte penso no artista e no seu mundo maravilhoso, contornado de sofrimentos e de prazeres, a arte é um ofício “aprendido” a ferro e fogo e modelado em bigornas de cultura que pesam horrores nos ombros do artista.
Ao pensar na obra penso no pedreiro, as pessoas só lembram dos pedreiros, dos serventes, mestre de obras quando deles estão precisando. Mas não se preocupam com sua cultura, sua formação, sua vida, sua falta de habitação. Não pensam, digo dos doutores que vivem num mundo bem distante do mundo do construtor, que o pedreiro não teve uma formação, e que ele antes era servente, que teve de aprender tudo na raça, que ele é o fruto de um ambiente hostil, de fome, de falta de escola e de distorção de valores. E exatamente destes cobram a perfeição.
O dilema acontece agora, querem desses indivíduos que constroem casas, as prestezas e as habilidades do artista, querem uma habitação luxuosa, agradável, bonita, aconchegante e sobretudo perfeita (ou seja: artística) saídas das mão dos parias que não tiveram outra chance no mundo senão a de construtores e trabalhadores braçais. Ignorantes “fazedores” de massa.
Ponho-me então a pensar, e a perplexidade me persegue.

quarta-feira, julho 26, 2006

inferno

Para Glaura



escrito de tempo de dor



Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
che la diritta via era smarrita
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!

Dante



e o arco se dobra e o fio timbra
uma dor profunda
os dedos sangram e o punho vibra em
ásperas veias
um gosto amargo na garganta
o timbre em dó
a garganta em nó
a flecha em rispe
o golpe e o furo
no porcelanato branco do chão
rastos rubros
escorregados

domingo, junho 04, 2006

Der Vulkan

para Gi Maia






Sie hatten heute in Sils-Maria das bescheidene Haus besucht, an dem die Tafel mit der Inschrift hing: "Hier sann und schaffte Friedrich Nietzsche..." Über diesen Text hatten sie etwas lachen müssen, aber sie waren ernst geworden in der engen Stube. Aus dem Fenster gab es keinen Blick in diese unsagbare Landschaft; man hatte vor sich nur die steil nach oben strebende Wand des Hügels, an den das Haus wie fest gewachsen schien. Bei all seinen inneren Kämpfen, enorme Aufschwüngen, katastrophalen Niederlagen, hatte der magenkranke Professor - gemartet von Kopfschmerzen und intellektuellen Ekstasen - sich nicht den Trost der schönen Aussicht gegönnt. Marion und Marcel konstatierten dies mit Ehrfurcht und mit Erbarmen.-




"Hoje eles visitaram a modesta casa em Sils-Maria, na qual uma placa pendurada dizia: "Aqui meditou e trabalhou Friedrich Nietzsche..." Eles tiveram de rir um pouco sobre esse texto, mas, dentro do cômodo estreito, ficararam sérios. Da janela não havia vista sobre esta paisagem inefável, diante de si existia somente a parede ereta do penhasco que se anseava para cima, onde a casa parecia estar profundamente plantada. Mesmo com todas suas lutas interiores, enormes prosperidades, derrotas catastróficas, o professor doente do estômago - enfraquecido pelas enxaquecas e pelos extases intelectuais - não se entregou ao consolo dessa linda vista. Marion e Marcel constataram isto com respeito e compadecimento.-"



Tradução livre de um parágrafo do livro
Der Vulkan
de Klaus Mann.

terça-feira, abril 25, 2006

um fato

Mas nem era sobre isso que queria falar, queria somente lembrar dum fato que me veio novamente na memória quando estava lendo uma trágica notícia.
Foi exatamente no dia da minha primeira comunhão, eu estava nervoso, como criança tinha fé e medo. Na hora da comunhão. Finalmente estava na fila, feliz em receber um dito Corpo de Cristo, que pelo gosto me decepcionou muito, a fila não andava e nem parava, ia, e eu nela, rezando para não sei o que, meus olhos no chão, por vezes batia no padre velho caquético, que cheirava a naftalina, refletido no brilho do piso, o cheiro eu conhecia da maldita confissão.
Minha roupa era branca, tinha vela na mão, tinha um tremor no corpo, o qual, falavam ser o espírito de Deus. Hoje sei que não era. Era angústia, medo e desentendimento, mais uma boa pitada de descrença escondida junto com a minha malária no centro da coluna cervical.
E na hora que chegou a minha vez o padre levantou a chapa circular branca, feita de farinha e água, que hoje sei como é chato quando cola no céu da boca. Olhou pesadamente para os meus olhos, que até hoje não aguentam nada, vi sair de seus olhos um brilho que não pude definir, sua voz de padre velho falou O Corpo de Cristo e eu queria responder o amém, de todo coração que queria, mas demorou muito, eu tinha treinado mentalmente há dias e tinha dado sempre certo, sempre saiu como uma bala, eu sabia que eu não podia vacilar, tinha que ser toma-lá-dá-cá. Mas o brilho indefinido daqueles olhos de padre velho me fizeram vacilar e o amém não veio. E o padre me olhava e falava o tal do corpo de Cristo e o amém não queria vim. E ele mais alto e ficando vermelho e eu mais baixo e embranquecendo. Você tem que falar amém, mas não saía mais nada, nem eu sei. Nem amém, nem eu sei, nem mais nada. Não me lembro bem de como terminou essa coisa toda, sei que todo mundo percebeu e que quase morri de vergonha, parecia o Idiota de Dostoieviski, que por ser epiléptico pensavam assim dele, sempre me senti visto um pouco como idiota, tan tan e esse dia foi até mais doloroso que outros, estava besta e idiota diante de Deus... com certeza ganhei o trem de farinha de trigo e sem gosto, mas tenho a impressão de que o tal do amém não veio até hoje e tenho também a impressão de que aquele trem de farinha de trigo e sem gosto também não tinha nada de corpo de cristo. Era somente farinha de trigo e água e mais nada.

terça-feira, março 28, 2006

dissonância

escrito de tempo outro




quando chegar quero estar perto do sol
mas debaixo de uma árvore
quero pensar, te pensar
merecer incandescente
festejar solenemente
te alojar na frenética poesia do
dia a dia
na alça de um coração
te deito
se cubro de beijos?

mas no encanto da saudade
o sol te levou

domingo, março 26, 2006

nesse citar de palavras

escrito em outro tempo





de estar vivo
necessito-lhe somente
tempo de minha sobrevivência,
do tempo de meus olhos
de tempo de minha vida

não diga nada, senão
da boa fruta extraída do tempo
diga nada, senão,
da boa comida tirada da flor
pelo momento que olha e cala
o disso e o isso e o inverso
inunda-me com carinho
com o conforto da ternura
sim,
terei em mim
mais do que tudo
mais do que todo

deitei sobre o tempo em trilho
movi-me desprendido
saí, ao infinito

e por necessitar fiquei
quem sabe onde,
quando
necessito do gosto existente da boca
do quanto mais quero
de acima de todo o tudo
e ainda que sempre
necessitar

sexta-feira, março 03, 2006

Zusammenhang

cu co'as calças





Os tarugos do assoalho dos quartos são de cumaru,
duro que nem cerâmica
o próprio é de garapeira
madeiras complicadas
tipo jazz que toca na rádio
Swiss jazz
http://www.radios.com.br/cgi-bin/9/jump.cgi?ID=390550
e enquanto isso vou aprendendo tomar
meu chimarrão
cumaru, grápia amarelinha
jazz bruto, tosco e o chimarrão com erva mate daqui
ornando tudo, não?

sábado, fevereiro 11, 2006

zurück?

sinto que sai, nem sei de onde
sinto que não permaneço
que perambulo
que estou prestes
mas não sei a que
quero quebrar as palavras
desestruturá-las
moer em mó, em moinho
bater na bigorna com martelo pesado
serrar com serrote de cabo quebrado
queimar em fogo, de chama ardente
de maçarico
explodi-las
sentir debaixo da língua
no gosto do beijo, na ponta do cheiro
o estalo do verbo
soltá-la em gás, pulverizando em canteiros
de jardins de depois de amanhã
e assim, livre das asas dos livros
de teias de aranhas
de idéias introjetadas
na correnteza da vida
na roda dos contos cantados
na rua dos desgraçados aflitos
quero senti-las sutis
etéreas, quebrando quebrantos
na casa dos sonhos
do meu despertar

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

serias, ou, ensimesmação

escrito de tempos inseguros


algum verso bramanista, ou como se diz?



eu sou o embrião, o feto
sou carne, osso
alegria e felicidade
do outro
sou vontade, querer, ser
desejo meu, seu, nosso e deles
sou deles
sou o tempo e seu motor
sou o vento, o rio
sou o rio que leva o barco
sou o barco e os namorados
que conspiram na noite um crime
sou o beijo, o cheiro, o som
e a sua ausência
sou o louco, alucinado
a prostituta da noite
a poesia cósmica
o poeta da foice
sou a doença do corpo
sou a causa, vítima, ódio
saudade
sou taciturno e oportuno
e as vezes inoportuno
sou ser do mundo
verme que nasce da terra
sou do ovo, falso
mística, espírito concreto
sou os olhos e a bunda da moça que passa
sou a ponte, o estreito
o remendo e o rebento
sou a política, o ato
o sexo
sou mórbido
a intuição, a medida,
o medidor a medição
sou dentro, sou útero
sou o clímax, no interior da maldade
sou irmão, sou cristo
capeta, esgoto, escroto
inteiramente vampiro
nobre, sou forte, mais do que fraco
não sou qualquer um
e nem diferente dos outros

sábado, janeiro 14, 2006

um canto

escrito de pós tempo doloroso



Escancara-se a porta
então, os cadeados e as fechaduras
enegrecidos pelo tempo
nem emperrados estavam
o céu era azul, não tinha vento
só uma brisa fresca insistia,
no quintal gramado passarinhos
brincavam com tudo
uma lebre correu
rápida
o poço velho, branco e de pedra escura
com seu telhado de madeira
era uma floreira linda
não lembro se tinha flores
De longe vinha um mugido
ovelhas gritavam seu entusiasmo diante
da nova manhã
E com certeza as codornizes
estavam sempre a correr pelos campos
onde tinha um tiquinho de água

O que sei é que tenho saudade dessa
aldeiazinha no sul da Escócia