quinta-feira, setembro 01, 2005

da Chica

O vô tinha lá suas inteligências, dele. Como gostava de com a gente inventar estórias, colocar medos e apelidos em todos. Para a vó, Makita, Biquinho para o chapéu de pano e de não me lembro qual cor, se não me engano azul, para o carro, para mim. Enfim, todos que à sua sombra respirassem logo recebiam um segundo nome, mesmo se não respirassem. E falava, gostava de contar, qualquer coisa era na sua boca conto. Além de contador era também cantador, pois, a partir de cada conto ou apelido, vinha logo um musiquinha que atazanava a vítima durante muito tempo. E ainda me lembro da musiquinha da cachumbeira, quando minha irmã essa doença teve.
Depois que em Minas viemos morar, e a viajar começamos, já que viajante e caixeiro viajante meu avô também era, por perto de Caetanópolis e sua redondeza toda, muito me falava de um tal de Guimarães Rosa que ali por perto nasceu, e sem ter a dimensão exata me falava de sua grandeza infinita. Ah... como me falava desse João, e logo me sentia engrandecido, por ter o mesmo nome e por, de certa forma, ser seu conterrâneo, os vôs eram, e, portanto, eu também.
O vô gostava de ler, e comigo muito conversava, versa-va, ensinava e educava, ele era alegre, risonho, simpaticíssimo tanto, que muitos amigos cultivava, e nunca vi, nem fiquei sabendo de erros mais graves que pudesse ele cometer. O vô era sem dúvida vô, e com ele sentíamos e tínhamos a certeza de estarmos seguros. Dinheiro ele não tinha, tinha vida, e esta, ele oferecia a quem quisesse.
O tempo passou, como sempre passa e a gente não nunca vê, a gente cresce, cresce, aprende, vira gente, vira leitor, conhece outras gentes, começa ver o mundo e que mundo existe. A gente sem ver vira homem e pronto para se tornar pai e dali certo tempo avô. Comecei a procurar saber das coisas, lendo, escutando conversas dos grandes, sempre tendo medo de, na rua, fazer bagunças de meninos, preferia premeditar as coisas e ficar pensando no que aconteceria se alguma coisa fosse feita. E com isso ia querendo aprender a ser filósofo e daí deixar nascer a poesia como forma de pensamento. Nossas conversas tornavam-se mais difíceis, o vô ralhava e dizia que menino não podia discutir, por que era novo e não sabia de nada ainda. Isso me danava, e em silêncio ficava com raiva de ser neto dele. O vô não aceitava muito a nossa opinião. O vô tinha a dele.
E foi passando, o tempo ficando curto, o vô ficando mais velho e mais doente e pouco podia aprender mais, o vô, de certa forma, teve que parar no tempo, não podia seguir mais, não tinha força e depois disso pouco conversávamos. Agora já não viajávamos, não saíamos juntos e ficávamos cada vez mais longe. Eu mais cresci, era quase gente grande, meus cabelos crescidos, a última vez que o vi meus cabelos batiam nos ombros e ele nada não falou, pelo rosto até achou bonito.
Enfim eu já era grande e sabia um quase do que pensava. Aí o vô morreu.
E hoje, depois de tempos de sua morte me veio na cabeça a Chica torta, na minha visão de criança, essa era a fatal de nossa família, o terror com que se ameaçava os pequenos. Os de hoje nem medo mais têm.
Não sei porque, o que ficou mais na cabeça, foi que a Chica torta era bonita, eu não via boniteza, boniteza em olhos de criança é completamente diferente. Quando eu os via conversar, o vô também achava que por baixo daquela sujeira toda a Chica era mesmo bonita. Que fosse: mas meus olhos não podiam ver tal beleza.
Os mais novos, logo depois de mim, que não escutaram essas conversas, continuaram a ter medo da Chica Torta. Se bem me lembro, de torta não tinha nada. Era sim, suja, meio doida, retinta como uma rainha africana que perambulava pelas rua com um saco nas costas, sempre pedindo esmolas nas ruas, e a vó algumas vezes deu a ela de comer.
A magia da palavra BONITA me tirou o medo. A palavra dizia mais do que a aparência e passei a ver a Chica com quase os olhos de meus pais e meu avô, acho que nem lembram mais disso os meus pais, não cultivam o jardim das palavras e das lembranças. Talvez para eles a beleza da Chica não tem ou teve muita importância. Para mim muita importância teve e tem, pois, a partir da poesia que eles, mesmo sem querer recitaram, em que dizia de uma beleza escondida debaixo do véu da sujeira, da miséria e da loucura, muito me serviu para ad-mirar e ver as pessoas de outra maneira, revés da conveniente.
A beleza de Chica Torta, que a transformou de terror em magia me faz feliz, e muita, muita saudade tenho dela. Não sei o seu nome, paradeiro, se teve filhos, se ainda continua bela da maneira que era. Se era sonho. Uma coisa só tenho certeza, de que o vô me criou um personagem que teve duplo significado, a personagem feérica e criativa, que a Chica era, já que antes nos assustava. E a personagem filosófica, que me ficou de uma criação ingênua e sem maiores pretensões que me arremeteu ao mundo da poesia.
Sem querer, o vô e também a Chica, com ajuda de meus pais fundiram em mim uma nova maneira de sentir a beleza que reside em cada pessoa. A eles agradeço.
Hoje sei, que quanto a Guimarães Rosa, razões maiores o vô não poderia ter. Era exatamente sobre isso que ele escrevia. A beleza do mundo que é preciso ser vista, e que pouca gente vê. Com outros olhos.

poesia apoética

escrito de outro tempo



Para se fazer poesia
é preciso uma folha,
uma caneta e quem sabe
uma mulher amada.
É preciso toda cumplicidade
e acumular o máximo de sentimento
que um corpo possa embutir,
por mais duro e intragável que seja.
Basta deixar que a ternura, mestra nômade
de almas perdidas, nos crive
e mesmo tarde derive
sonhos do corpo e
ilusões partidas
sorriso da face e
esperanças perdidas.
Ou a utópica vontade de ser
humano.
E deixar por engano
a ternura esquecida em ti
escrito de tempos rancorosos (1990?)




O submundo, o mundo do sub
e subdesenvolvido, e terceiro mundo
o mundo no terceiro milênio
O terceiro mundo subdesenvolvido
envolvido
no advento do terceiro milênio


Aqui me força a rima seca e sem graça

Podridão desce do norte
o norte sempre sem norte
trazendo numa mão a sorte (aí a fatídica rima)
e logicamente na outra a morte

Um corte profundo
e no ecossistema do mundo
jorra um sangue de papel
um sangue de dólar
um sangue de esmola

No norte, um mundo
no sul, submundo
no mundo do norte
restos de vidas, restos nucleares
que no sul, sujos os climas
sujos os ares
que sujem-nos!
Pois, nós. Do norte do mundo?
Nada mais somos
que lixo mudo
ou pior, lixo do mundo

quarta-feira, agosto 31, 2005

domingo, agosto 28, 2005

turvulência

Escrito em outro tempo




Iam eles, pau e água
em turvas cores
navegação...
Serenos, fazendo artes imprecisas
momentâneos, complementando vidas
viam-se não, sentiam-se -
sob o pau: vaus!
E em páramos alhures
locas fundas e quietas cores, as turvas
que brilhavam por fora.
Tão ignóbeis seriam suas atitudes
e mistérios, profundos...
Turvas cores fluidas, que se diziam
incompreensíveis e inefáveis -
tabus?

Não!!! mais, mais, mais...

Vaus claros bonitos,
reboliços
serelepes
bagunceiros.
Ao que logo se via
verdades e mentiras
de tempos idos e corroídos
pelo próprio tempo
indefinido.