quarta-feira, julho 27, 2005

terça-feira, julho 26, 2005

Da vida de um quase turco 09.2001

Pois é, fui hoje fazer uma compra para a Mirtes e o Helmut quis ir junto, entramos no supermercado e fomos primeiro procurar um CD-ROM da lista telefônica para o Helmut, olhando CD daqui e dali bati o olho num programa de Simulador de Vôo, lembrei-me que há uns dez anos brinquei com uma coisa dessas na firma do Fernando, quando ainda era no Santa Efigênia. E me veio assim uma saudadezinha, melancolia pequenininha de um momento, um lugar, uma vez.
Coisa rápida, mas de repente vi o preço, ah, quinze marcos não são nada, dar uma pilotadinha num avião desses, se não me engano era um Airbuss 330, desses grandões. Outra melancoliazinha, voar, Brasil, parentada, aquele espírito de viagem, mala, tudo. Interessante quanta coisa passa pela cabeça da gente em tão pouco tempo, e o mais interessante ainda é o que não passa. Foram segundos, e já estava tentando levantar vôo, olhar o painel de bordo e ver como era, voar, fazer algumas manobras e finalmente escolher um aeroporto e pousar, ou seja, tentar pousar, várias vezes até que dê certo. Por que não? a gente é criança até o momento em que não nos avisam o contrário, ou melhor , até que alguém diga: pera aí rapaz, você tem filho, é casado e brincando com jogo de computador, mas ninguém nada falou.
Quando vi, Helmut, mesmo cego, já estava querendo manejar o avião e pousar n'algum lugar, quimérico, com certeza. Só dele. E quando vi de novo o CD-ROM já estava dentro do carrinho de compras e partimos à caça da lista telefônica que nem achamos.
Essas últimas semanas foram de sentimentos vários, pensamentos frios e reações quentes, assistia a muitos debates, me irritei com muita besta que trás título de doutor e achei interessante o que artistas e gente dessa sorte pensam e dizem. Mas nesse momento, em que o CD-ROM caía dentro desse carrinho de compras, o barulho que ele fez quando bateu contra a grade me despertou coisas que estavam dormindo talvez há apenas três minutos atrás. Esse baque quase imperceptível me fez lembrar que eu era preto, branco, nunca, pelo menos aqui não. Era sim, preto como o povo brasileiro. Essas coisas às vezes são esquecidas, ainda mais quando não se sai muito de casa e não se vê o olhar que as pessoas jogam em cima da gente. Nesse momento o nome Penharvel virou Penhalver, Ben-al-ver ou qualquer coisa nessa direção, o filho do que cava, o filho do coveiro, o filho do garimpeiro, e isso me levou para quatrocentos anos atrás, algum lugar no oriente médio ou no norte da África, algum avô de turbante, com aquele vestidão e lavando as mãos e os pés cinco vezes por dia, ajoelhando-se em direção de Mecca e louvando o seu Deus, o seu Alá que era o maior. Ou talvez seria uma avó, que, durante as esperas das cinco orações, envolvida em seu véu, deixando apenas os olhos de fora, olhava para o céu e agradecia a seu Deus ou Alá, que era o maior, enquanto misturava a água à farinha branca que seria o pão ázimo, asmo, fininho, assado encima de uma pedra ou dentro do forno de chão, grudado à sua parede.
Esse barulhinho me fez sentir uma coisa que a muito tempo não sentia, ou talvez nunca tenha sentido isso antes. Pelo que bem me lembro já sabia disso, mas sentido ainda não. Trago em mim uma mistura de sangues, me olho no espelho e vejo uma pele embranquecida, pela falta de sol, mas que ainda assim me faz a diferença, não sou branco, uma barba rala, que diz tudo. Um olho amarelado de areias de há muito tempo. Gosto de areia, gosto do vento, mais da areia, tanto é que quando a peneiro para o reboco gosto de senti-la fina correr entre os dedos. São coisas que vêm de longe, de há muito.
Nesse outro momento vejo uma mulher me olhando, lendo meu nome esquisito no cartão de crédito, anotando despistadamente num canto do caixa e tentando perceber o meu rosto muito bem. Me vejo já em outro momento, o ridículo, o olhado, o animal árabe, cuspido, chutado, tido como cínico, culpado, ignorante ou alienado. Curtido. Deve ser a minha cor, deve ser o meu jeito, deve ser o meu modo de falar e a minha pronúncia, o alemão torto, deturpado e gaguejado. Deve ser a minha cultura risonha, o meu sorriso leve no canto esquerdo da boca, uma cagada que dei no mundo, que sempre dou. Talvez seja o fedor da minha boca por ter comido alho demais no meio do feijão. A culpa vem também ás vezes de tanto comer milho. Comer azeitona, quibe, esfirras. Nada de batatas, nem linguiças, micro-ondas, essa coisas que os civilizados comem. No fundo é a alcachofra ou o quiabo.
E no terceiro momento devolvo o CD-ROM ao seu lugar, como pude ser tão tolo, a menos de três semanas aconteceu uma coisa daquela e eu com essa cara de turco, morroquino ou sei lá querendo comprar um simulador de vôo para o computador num supermercado alemão que tem mais de mil olhos. Helmut que não quis abrir mão do seu já começado sonho. Queria voar. Mas como já tinha voado acho que bem mais do que ele, nesse momento, convenci-o do deixar estar. Não vale a pena. Deixe pra lá. Pois, aqui o que vale é aquilo que parecemos. Ser significa muito pouca coisa.

segunda-feira, julho 25, 2005

Outra pequena conversa, com Glaura 03.2003

Ah!!!!!!!!! me escapou, o fio, a meada. A meada está ainda a martelar o fio nem sei, acho? Tutaméia me prova da ignorância da minha idade e da Naivität do meu olhar. É difícil, gente!!! Mas espera, que já fecho as mãos de novo, fecho os olhos e me dê um tempo, uns dias umas músicas que são o tempo que passa no meio da cerveja. A primavera já vem, e com elas, as tulipas. Tulipas! Esses olhos... de gatos, O Miriligus talvez me conta, mas só talvez, é que o jardim, mas ainda eis que é inverno, frio, e nas campinas, tem que ser verde. Preciso de seu tempo e de fechar os olhos por outras vezes.
Mas acho que te contarei talvez o oposto. Ao Miriligus não lhe dê nome, é melhor. Os nomes encolhem, prendem, tolhem, é assim que se escreve isso?
Será que hei de captar esse movimento? Mas tive a impressão que sim, mas provavelmente não poderei te ajudar apesar de estar na quina e ter sentido o sentido esbarrar no ar que roçava minhas orelhas, ou era o cheiro, no nariz? Dê-me o tempo para isso, pra eu brincar com isso, se não te mando o que é e vai o que não é.

domingo, julho 24, 2005

De uma pequena conversa com Glaura

Mas o que me afronta é o seguinte, na tradução desse texto em alemão, o tradutor traduz assim essa frase: Todo mundo está inseguro sobre aquilo que ele afirma, Die ganze Welt ist sich unsicher über das, was er behalptet. Há uma diferença, pois, "Todo o mundo tem a incerteza do que afirma" Daí o nó na minha cabeça, claro que a frase está ligada ao personagem, mas entendi que, estando a ele ligada, o escritor teve a competência de generalizar a questão inversamente, pois que Drijimiro tinha segurança com aquilo que emanava.
Penso que ao tradutor fugiu essa nuance, mas perdoemo-lo ( e eu hein!), ele fez um ótimo trabalho com as traduções para o alemão, o Curt Meyer-Clason.
Também o Lá, me era lógico, é o espaço poético e até bíblico, que pode ser interpretado como um tempo especial. Penso que entendi esse conto. A chave esta na sobrinha do padre, que deve ter despertado algum sentimento escondido ou suprimido. Lembremos que em certa parte da vida ele perdeu o dom de ver o belo, as coisas belas perderam o brilho, a natureza desapareceu por causa dos negócios. A pergunta é, talvez, impossível de ser respondida, simplesmente pelo fato de que ele não a respondeu. Não sabemos o que significa a sobrinha do padre, a releixa para segar, que era feia de sorte. A morte? Seria fácil!
Cá pra nós, será que o choque da feiúra fez com que ele acordasse do sono e da névoa em que passou a viver, - que não o deixava enxergar as coisas belas, a natureza passou a não representar mais nada, lembre que em dois lugares no texto, no início e no fim, Guimarães Rosa descreve uma paisagem bem brilhante, o azul das águas das lavadeiras etc.. etc... - Será que essa "feiúra" despertou novamente o belo, o idílico, o lá? ... da infância...
Pra agora estou muito inseguro do que afirmo, ou melhor, proponho.
A quem me fala que vai ler o Grande Sertão, Veredas pela primeira vez, o que não é o seu caso, dou uma sugestão. Pense em uma floresta alta e escura, com rios fundos e cheios de piranhas, jacarés, sucuris. No chão da floresta as onças, cascavéis, aranhas e escorpiões. Pois é. A floresta é linda, cheia de vida e beleza monumentais, mas a noite é uma barulheira enorme, o som do silêncio é agressivo, o perigo é da vida, pois que, viver é perigoso, Há que se jogar vivo através dessa floresta e atravessá-la, primeiro aos trancos e barrancos, como se diz, andando às cegas, tateando, de quatro, de tudo enquanto é jeito, catando cavaco. E depois de umas setenta ou cem páginas dessa floresta, no corpo vão cicatrizando as feridas, que se tornam marcas e que pelo corpo são incorporadas. Perdemos a inclinação de macacos com o tempo e as páginas. Levantamos então a cabeça e nos damos conta de estarmos em um "lugar" lindo em que, mesmo sabendo dos perigos que pululam, existem também as bromélias, as orquídeas e os cheiros maravilhosos. Ou seja, Depois da escuridão e do total estranhamento vem a recompensa que é a beleza. É preciso um certo calejamento para se ver as belezas do sertão e de sua vida, temos que aprender o que é sertão.
Um abraço forte e felicidades com o Proust.

Um dia em 2004

Brecht, Brecht!


E aquela casinha, na beira de um lago, na qual subia pela chaminé a branca fumacinha?
Para alguns falo que o bom da fumacinha era a amada...