quarta-feira, agosto 17, 2005

Livros

(de um canto da estante)


Num canto, de rompante, se levanta Dostoiévski
De vermelha túnica, barbas cerradas e sério,
completo.
No meio era a vez de Guimarães Rosa, todo de branco
com seu cigarrinho na mão e a fumacinha que ia de encontro a Miguilim ou a Miriligus, e o gato ficava de espreita, rijo.
De azul claro, e bem vestido, engravatado, sentado à sua colossal escrivaninha
o olhar escuro de um homem olhava fixo por detrás dos óculos redondos.
Thomas Mann tragava no cigarro um gosto que devia ser bom e do copo de Coca Cola
saia um frescor já naquele tempo, Érica e Klaus deviam espiar pela fresta de suas imaginações e aprender com o pai tão presente e tão distante. A casa era muito grande.
O velho Saramago, e sua literatura maravilhosa, sua forma de moralizar, trazia o amarelinho bege e a simplicidade, os óculos grandes e o terno de sempre. Cabeça grande, corpo esguio e alto, olha de cima como quem observa um bando de seres perdidos a procura do não se sabe o que.
O velho Saramago que só é velho na idade.
Günther Grass de branco, simples, o charuto fedorento, o olho meio puxadinho e as mãos inquietas de artista, os desenhos se descolam do papel e vão se emaranhando por entre as páginas dos livros, saem pelas bordas e se enrolam nos aros e no cabinho dos óculos sem lentes.
Camus vem de vermelho mais denso, olha para nós com o jeito de estar passando, aquele jeito de sempre, gola arrebitada, blusão grosso. Procura sempre pelo túmulo do pai.
Goethe, de linho amarelado, clássico, olha como esfinge, olha como mito, Deus. Goethe é por demais impalpável, falta-nos em linho aquele divã oriental. Vejo-o passeando em Weimar com as mãos para trás, ou de pé, sério, ditando a John mais alguma parte de Dichtung und Wahrheit. (Será que ele ditou Dichtung und Wahrheit a John, acho que sim) Difícil mesmo é aceitá-lo naquele caixão enorme e bonito ao lado de Schiller.
Nietzsche me olha sem idade, sem tempo e sem expressão.
Assim vão se entrosando os meus livros em minha estante,
magistral orquestra que faz desfilar idéias, e mundos.
Tenho que parar por aqui, a noite e o cansaço me comem e os livros querem confabular a história de seus autores.

Um comentário:

Ursel disse...

"Und noch etwas lässt mich schwer nachdenklich werden:
wie sehr die Ehe dafür geeignet ist,
die Liebe zu ersticken,
wenn Mann und Frau nicht achtsam sind !!"
Acho que se foi, foi o nosso caso na Alemanha, meu bem..
Aqui mudou muito e vai mudando: sempre mais pro lado da vida !
mesmo assim, nunca faz mal de ficar atento no amor ;)