domingo, julho 24, 2005

De uma pequena conversa com Glaura

Mas o que me afronta é o seguinte, na tradução desse texto em alemão, o tradutor traduz assim essa frase: Todo mundo está inseguro sobre aquilo que ele afirma, Die ganze Welt ist sich unsicher über das, was er behalptet. Há uma diferença, pois, "Todo o mundo tem a incerteza do que afirma" Daí o nó na minha cabeça, claro que a frase está ligada ao personagem, mas entendi que, estando a ele ligada, o escritor teve a competência de generalizar a questão inversamente, pois que Drijimiro tinha segurança com aquilo que emanava.
Penso que ao tradutor fugiu essa nuance, mas perdoemo-lo ( e eu hein!), ele fez um ótimo trabalho com as traduções para o alemão, o Curt Meyer-Clason.
Também o Lá, me era lógico, é o espaço poético e até bíblico, que pode ser interpretado como um tempo especial. Penso que entendi esse conto. A chave esta na sobrinha do padre, que deve ter despertado algum sentimento escondido ou suprimido. Lembremos que em certa parte da vida ele perdeu o dom de ver o belo, as coisas belas perderam o brilho, a natureza desapareceu por causa dos negócios. A pergunta é, talvez, impossível de ser respondida, simplesmente pelo fato de que ele não a respondeu. Não sabemos o que significa a sobrinha do padre, a releixa para segar, que era feia de sorte. A morte? Seria fácil!
Cá pra nós, será que o choque da feiúra fez com que ele acordasse do sono e da névoa em que passou a viver, - que não o deixava enxergar as coisas belas, a natureza passou a não representar mais nada, lembre que em dois lugares no texto, no início e no fim, Guimarães Rosa descreve uma paisagem bem brilhante, o azul das águas das lavadeiras etc.. etc... - Será que essa "feiúra" despertou novamente o belo, o idílico, o lá? ... da infância...
Pra agora estou muito inseguro do que afirmo, ou melhor, proponho.
A quem me fala que vai ler o Grande Sertão, Veredas pela primeira vez, o que não é o seu caso, dou uma sugestão. Pense em uma floresta alta e escura, com rios fundos e cheios de piranhas, jacarés, sucuris. No chão da floresta as onças, cascavéis, aranhas e escorpiões. Pois é. A floresta é linda, cheia de vida e beleza monumentais, mas a noite é uma barulheira enorme, o som do silêncio é agressivo, o perigo é da vida, pois que, viver é perigoso, Há que se jogar vivo através dessa floresta e atravessá-la, primeiro aos trancos e barrancos, como se diz, andando às cegas, tateando, de quatro, de tudo enquanto é jeito, catando cavaco. E depois de umas setenta ou cem páginas dessa floresta, no corpo vão cicatrizando as feridas, que se tornam marcas e que pelo corpo são incorporadas. Perdemos a inclinação de macacos com o tempo e as páginas. Levantamos então a cabeça e nos damos conta de estarmos em um "lugar" lindo em que, mesmo sabendo dos perigos que pululam, existem também as bromélias, as orquídeas e os cheiros maravilhosos. Ou seja, Depois da escuridão e do total estranhamento vem a recompensa que é a beleza. É preciso um certo calejamento para se ver as belezas do sertão e de sua vida, temos que aprender o que é sertão.
Um abraço forte e felicidades com o Proust.

Um dia em 2004

3 comentários:

atoep disse...

Oh, man. I agree totally.

Onapomona disse...

Sobrinha do padre não seria uma 'alegoria' popular da morte?

Confligerante disse...

Tem de se cuidar com a falsa pista