terça-feira, julho 26, 2005

Da vida de um quase turco 09.2001

Pois é, fui hoje fazer uma compra para a Mirtes e o Helmut quis ir junto, entramos no supermercado e fomos primeiro procurar um CD-ROM da lista telefônica para o Helmut, olhando CD daqui e dali bati o olho num programa de Simulador de Vôo, lembrei-me que há uns dez anos brinquei com uma coisa dessas na firma do Fernando, quando ainda era no Santa Efigênia. E me veio assim uma saudadezinha, melancolia pequenininha de um momento, um lugar, uma vez.
Coisa rápida, mas de repente vi o preço, ah, quinze marcos não são nada, dar uma pilotadinha num avião desses, se não me engano era um Airbuss 330, desses grandões. Outra melancoliazinha, voar, Brasil, parentada, aquele espírito de viagem, mala, tudo. Interessante quanta coisa passa pela cabeça da gente em tão pouco tempo, e o mais interessante ainda é o que não passa. Foram segundos, e já estava tentando levantar vôo, olhar o painel de bordo e ver como era, voar, fazer algumas manobras e finalmente escolher um aeroporto e pousar, ou seja, tentar pousar, várias vezes até que dê certo. Por que não? a gente é criança até o momento em que não nos avisam o contrário, ou melhor , até que alguém diga: pera aí rapaz, você tem filho, é casado e brincando com jogo de computador, mas ninguém nada falou.
Quando vi, Helmut, mesmo cego, já estava querendo manejar o avião e pousar n'algum lugar, quimérico, com certeza. Só dele. E quando vi de novo o CD-ROM já estava dentro do carrinho de compras e partimos à caça da lista telefônica que nem achamos.
Essas últimas semanas foram de sentimentos vários, pensamentos frios e reações quentes, assistia a muitos debates, me irritei com muita besta que trás título de doutor e achei interessante o que artistas e gente dessa sorte pensam e dizem. Mas nesse momento, em que o CD-ROM caía dentro desse carrinho de compras, o barulho que ele fez quando bateu contra a grade me despertou coisas que estavam dormindo talvez há apenas três minutos atrás. Esse baque quase imperceptível me fez lembrar que eu era preto, branco, nunca, pelo menos aqui não. Era sim, preto como o povo brasileiro. Essas coisas às vezes são esquecidas, ainda mais quando não se sai muito de casa e não se vê o olhar que as pessoas jogam em cima da gente. Nesse momento o nome Penharvel virou Penhalver, Ben-al-ver ou qualquer coisa nessa direção, o filho do que cava, o filho do coveiro, o filho do garimpeiro, e isso me levou para quatrocentos anos atrás, algum lugar no oriente médio ou no norte da África, algum avô de turbante, com aquele vestidão e lavando as mãos e os pés cinco vezes por dia, ajoelhando-se em direção de Mecca e louvando o seu Deus, o seu Alá que era o maior. Ou talvez seria uma avó, que, durante as esperas das cinco orações, envolvida em seu véu, deixando apenas os olhos de fora, olhava para o céu e agradecia a seu Deus ou Alá, que era o maior, enquanto misturava a água à farinha branca que seria o pão ázimo, asmo, fininho, assado encima de uma pedra ou dentro do forno de chão, grudado à sua parede.
Esse barulhinho me fez sentir uma coisa que a muito tempo não sentia, ou talvez nunca tenha sentido isso antes. Pelo que bem me lembro já sabia disso, mas sentido ainda não. Trago em mim uma mistura de sangues, me olho no espelho e vejo uma pele embranquecida, pela falta de sol, mas que ainda assim me faz a diferença, não sou branco, uma barba rala, que diz tudo. Um olho amarelado de areias de há muito tempo. Gosto de areia, gosto do vento, mais da areia, tanto é que quando a peneiro para o reboco gosto de senti-la fina correr entre os dedos. São coisas que vêm de longe, de há muito.
Nesse outro momento vejo uma mulher me olhando, lendo meu nome esquisito no cartão de crédito, anotando despistadamente num canto do caixa e tentando perceber o meu rosto muito bem. Me vejo já em outro momento, o ridículo, o olhado, o animal árabe, cuspido, chutado, tido como cínico, culpado, ignorante ou alienado. Curtido. Deve ser a minha cor, deve ser o meu jeito, deve ser o meu modo de falar e a minha pronúncia, o alemão torto, deturpado e gaguejado. Deve ser a minha cultura risonha, o meu sorriso leve no canto esquerdo da boca, uma cagada que dei no mundo, que sempre dou. Talvez seja o fedor da minha boca por ter comido alho demais no meio do feijão. A culpa vem também ás vezes de tanto comer milho. Comer azeitona, quibe, esfirras. Nada de batatas, nem linguiças, micro-ondas, essa coisas que os civilizados comem. No fundo é a alcachofra ou o quiabo.
E no terceiro momento devolvo o CD-ROM ao seu lugar, como pude ser tão tolo, a menos de três semanas aconteceu uma coisa daquela e eu com essa cara de turco, morroquino ou sei lá querendo comprar um simulador de vôo para o computador num supermercado alemão que tem mais de mil olhos. Helmut que não quis abrir mão do seu já começado sonho. Queria voar. Mas como já tinha voado acho que bem mais do que ele, nesse momento, convenci-o do deixar estar. Não vale a pena. Deixe pra lá. Pois, aqui o que vale é aquilo que parecemos. Ser significa muito pouca coisa.

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