sábado, dezembro 24, 2005

algo lá

escrito de tempos de madurecência




lá fora os passarinhos estridem
o bem-te-vi que não me viu, ouviu?
de cima do muro bem-te-voou
e a jabuticaba preta, doce, do meu pezinho de
jabuticaba esquerdo.
A do direito azedou
Jabuticaba ou jaboticaba?
É renitente o sol, me espanca
com seu calor
me amolece.
Esse país vai se vivendo muito.

sábado, outubro 22, 2005

Thomas


(de um canto da estante)


Thomas estava, enfim, de volta à Suíça. No mesmo hotel, na
mesa à minha frente, na mesma mesa de sempre, folheando aquele
jornal, que até parecia o mesmo.
Suas pernas cruzadas, o cigarro fumegando no cinzeiro e um copo
ao lado.
Os olhinhos se esforçavam à procura de alguma palavra, percorriam
as linhas atentos.
De quando em vez os olhos se soltavam do jornal e iam à procura de alguma outra coisa.
Cruzavam o terraço enorme do restaurante do hotel, e nada encontrando do que ansiavam,
voltavam-se decepcionados ao jornal.
Agora os olhos brilharam, de súbito apareceu à sua frente a figura esguia e tenra
do garçon que desde algum tempo o servia.
O escarlate tomou a face de Thomas que nem soube o que pedir, de certo agora já tinha tudo.
Estava repleto pelo dia. Estava mais rico para escrever outra página do Doutor Fausto.

sábado, outubro 08, 2005

Fiodor


(de um canto da estante)


A mesa estava esquálida, era uma mesa de carvalho, bruta, grossa
com suas cadeiras de igual madeira, pesadas.
Pesadas como o silêncio e os olhares que espionavam as motivações.
De semblantes sérios, os homens se respiravam sorumbáticos, e sob
a densa fumaça de cigarro o fedor de vodka abrangia o ar quase
incandescente.
Na minha frente estava um velho calvo, de olhos pequenos e
bochechas vermelhas, era alemão, do mesmo modo que também
era alemão o homem à minha esquerda, que usava óculos de tartaruga e vinha tratar de seus espasmos pulmonares.
À minha direita estava Fiodor, barbudíssimo, seus olhos eram inquietos demais, parecia que sua mente andava a mil.
Ouvi dizer que ele era um escritor e que tinha sido preso
e que conseguiu sair vivo de uma condenação à morte.
Sua morte foi revogada na última hora.
Fiodor apostara tudo naquele jogo, mas o alemão à minha frente
acabava de ganhar a partida.
Os olhos de Fiodor pararam um pouco, sua voz rasa me incomodou
Ah meu pai.
Não era em Deus que estava pensando.

quinta-feira, setembro 22, 2005

com kafka

(de um canto da estante)



Pus a mão na pele de Kafka
Peguei pelo seu braço de leve
E ele, com sua idade não me repeliu
Alguma coisa conversamos baixinho,
em alemão,
Perguntei: Wie geht's dir, mein bester?
E ele com sua voz baixa e dolorosa me disse
que não estava muito bem e que isso
não importava muito,
Das wäre jetzt nicht so wichtig!
Sua pele foi ficando tensa e avermelhada
no lugar onde eu segurava bem de leve.
Quando vi tirei a mão com pressa e me lembrei
que aquele ali era o Kafka...
E meu coração ficou aos pulos.

domingo, setembro 11, 2005

geraes, minhas gerais

escrito de outros tempos


E seu eu falasse ninguém acreditaria
das sinuosas curvas e altos montes e baixos talvegues
do cheiro que sai, já que exala, cheiroso
e não acreditariam também, de suas brenhas
e das paixões que inspira
O seu falar
o tom de voz, toada, lampejo de som
o tom de tonalidade de cor, róseo
exuberante e lírico cobrindo a cor de sua pele
que se faz clarão, gesto, dom
Quando em ti navego, no seu umbigo
rumo ao coração, que jaz;
quieto e palpitante
debaixo de tão ereto monte, de serra gêmea
me entrego aos ares, aos pelos, aos matos.
Ninguém acreditaria também
de suas fundas grutas, calcárias e ocas
vagas, vazias, prontas... esperas
buracos, abismos seus
Veias aquosas rosas
líquidas estradas de sonhos e campos molhados
suados, épicos, sagas
montes em descida e sempre descendo
veredas escuras matinais virgens e férteis
e calma e lisura, formosura, gostosura
trespassar, pensar, sana e sara e
nimas mínimas são "é" vales obscontitus
escondidas estão as almas, animadas emoções,
sorrisos, brinquedos-pensamento, caminhos
atalhos, sóis luas cheias e grandes ornamentais
brincos
manuéis, riobéis, andrequicés
diadoréis, zés, joãos, véz
vezes são você e mais vezes
ainda, eterna, romanticântica limpa
onde um rio lhe atravessa e lhe torna mais linda
eternamente minha pra sempre

em memória de meu tio menino

escrito de tempos tristes




Soluçava...
e o soluço era seu grito revoltado
nas entranhas do corpo encalacrado
Alimentava da escuridão
embriagava com o sereno,
com o vazio, com o nada

E forte tornou-se logo
obscuro, curto
raso de saber
fundo e amplo de beleza
Não aprendeu quase nada
não ensinou quase tudo
e tão vago era seu profundo
que entorpeceu-se no mundo

Entorpecido pelo desejo
se fez logo lágrimas e trovejos
amores e rancores
doidices, tolices
e meninices
e das coisas que esses homens dizem...

Cuidado
Mas a água que é boa, também nada,
Açoita e rapina
retira da vida uma revida
ou talvez uma sobrevida perdida
boiando náufraga
nos mares de águas da vida

E com risos medidos e submersos
velando um sofrimento mudo e quieto
se fez inexistente, acabado
Pelo pouco que tenha falado
foi velado
Guardo em mim seu deboche
de moleque, guri ou piá
perpétuo, olimpo e gigante

E danem-se os atingidos por ele...




E o que tinha Drummond contra as homenagens?

domingo, setembro 04, 2005

Pessoa, o Fernando





"Que cansaço de existir
De ser, só de ser
O ser triste brilhar ou sorrir

Não haverá, enfim,
Para as coisas que são
Não a morte mas sim
Uma outra espécie de fim
Ou uma grande razão
Qualquer coisa assim
Como que um perdão."


Fernando Pessoa

de sopros

Escrito de tempos agridoces




eu fico sentado na rua
vendo o vento levando o tempo,
e o casal de namorados
levam sorrindo em si a
alegria da ternura do momento.
e eu fico sentado na rua
olhando o vento
brincar de ternura com a folha
da árvore
e o menino passando e olhando pra mim

o menino foi com o tempo
ouvir o som do silêncio no vento

e eu fico sentado na rua
junto ao tempo, segurando-o
e o vento passa por mim
mas não me escolhe para a viagem

e ela passa com o vento
e dela só vi o vulto
e dela só senti o cheiro
que o vento deixou pra trás

quinta-feira, setembro 01, 2005

da Chica

O vô tinha lá suas inteligências, dele. Como gostava de com a gente inventar estórias, colocar medos e apelidos em todos. Para a vó, Makita, Biquinho para o chapéu de pano e de não me lembro qual cor, se não me engano azul, para o carro, para mim. Enfim, todos que à sua sombra respirassem logo recebiam um segundo nome, mesmo se não respirassem. E falava, gostava de contar, qualquer coisa era na sua boca conto. Além de contador era também cantador, pois, a partir de cada conto ou apelido, vinha logo um musiquinha que atazanava a vítima durante muito tempo. E ainda me lembro da musiquinha da cachumbeira, quando minha irmã essa doença teve.
Depois que em Minas viemos morar, e a viajar começamos, já que viajante e caixeiro viajante meu avô também era, por perto de Caetanópolis e sua redondeza toda, muito me falava de um tal de Guimarães Rosa que ali por perto nasceu, e sem ter a dimensão exata me falava de sua grandeza infinita. Ah... como me falava desse João, e logo me sentia engrandecido, por ter o mesmo nome e por, de certa forma, ser seu conterrâneo, os vôs eram, e, portanto, eu também.
O vô gostava de ler, e comigo muito conversava, versa-va, ensinava e educava, ele era alegre, risonho, simpaticíssimo tanto, que muitos amigos cultivava, e nunca vi, nem fiquei sabendo de erros mais graves que pudesse ele cometer. O vô era sem dúvida vô, e com ele sentíamos e tínhamos a certeza de estarmos seguros. Dinheiro ele não tinha, tinha vida, e esta, ele oferecia a quem quisesse.
O tempo passou, como sempre passa e a gente não nunca vê, a gente cresce, cresce, aprende, vira gente, vira leitor, conhece outras gentes, começa ver o mundo e que mundo existe. A gente sem ver vira homem e pronto para se tornar pai e dali certo tempo avô. Comecei a procurar saber das coisas, lendo, escutando conversas dos grandes, sempre tendo medo de, na rua, fazer bagunças de meninos, preferia premeditar as coisas e ficar pensando no que aconteceria se alguma coisa fosse feita. E com isso ia querendo aprender a ser filósofo e daí deixar nascer a poesia como forma de pensamento. Nossas conversas tornavam-se mais difíceis, o vô ralhava e dizia que menino não podia discutir, por que era novo e não sabia de nada ainda. Isso me danava, e em silêncio ficava com raiva de ser neto dele. O vô não aceitava muito a nossa opinião. O vô tinha a dele.
E foi passando, o tempo ficando curto, o vô ficando mais velho e mais doente e pouco podia aprender mais, o vô, de certa forma, teve que parar no tempo, não podia seguir mais, não tinha força e depois disso pouco conversávamos. Agora já não viajávamos, não saíamos juntos e ficávamos cada vez mais longe. Eu mais cresci, era quase gente grande, meus cabelos crescidos, a última vez que o vi meus cabelos batiam nos ombros e ele nada não falou, pelo rosto até achou bonito.
Enfim eu já era grande e sabia um quase do que pensava. Aí o vô morreu.
E hoje, depois de tempos de sua morte me veio na cabeça a Chica torta, na minha visão de criança, essa era a fatal de nossa família, o terror com que se ameaçava os pequenos. Os de hoje nem medo mais têm.
Não sei porque, o que ficou mais na cabeça, foi que a Chica torta era bonita, eu não via boniteza, boniteza em olhos de criança é completamente diferente. Quando eu os via conversar, o vô também achava que por baixo daquela sujeira toda a Chica era mesmo bonita. Que fosse: mas meus olhos não podiam ver tal beleza.
Os mais novos, logo depois de mim, que não escutaram essas conversas, continuaram a ter medo da Chica Torta. Se bem me lembro, de torta não tinha nada. Era sim, suja, meio doida, retinta como uma rainha africana que perambulava pelas rua com um saco nas costas, sempre pedindo esmolas nas ruas, e a vó algumas vezes deu a ela de comer.
A magia da palavra BONITA me tirou o medo. A palavra dizia mais do que a aparência e passei a ver a Chica com quase os olhos de meus pais e meu avô, acho que nem lembram mais disso os meus pais, não cultivam o jardim das palavras e das lembranças. Talvez para eles a beleza da Chica não tem ou teve muita importância. Para mim muita importância teve e tem, pois, a partir da poesia que eles, mesmo sem querer recitaram, em que dizia de uma beleza escondida debaixo do véu da sujeira, da miséria e da loucura, muito me serviu para ad-mirar e ver as pessoas de outra maneira, revés da conveniente.
A beleza de Chica Torta, que a transformou de terror em magia me faz feliz, e muita, muita saudade tenho dela. Não sei o seu nome, paradeiro, se teve filhos, se ainda continua bela da maneira que era. Se era sonho. Uma coisa só tenho certeza, de que o vô me criou um personagem que teve duplo significado, a personagem feérica e criativa, que a Chica era, já que antes nos assustava. E a personagem filosófica, que me ficou de uma criação ingênua e sem maiores pretensões que me arremeteu ao mundo da poesia.
Sem querer, o vô e também a Chica, com ajuda de meus pais fundiram em mim uma nova maneira de sentir a beleza que reside em cada pessoa. A eles agradeço.
Hoje sei, que quanto a Guimarães Rosa, razões maiores o vô não poderia ter. Era exatamente sobre isso que ele escrevia. A beleza do mundo que é preciso ser vista, e que pouca gente vê. Com outros olhos.

poesia apoética

escrito de outro tempo



Para se fazer poesia
é preciso uma folha,
uma caneta e quem sabe
uma mulher amada.
É preciso toda cumplicidade
e acumular o máximo de sentimento
que um corpo possa embutir,
por mais duro e intragável que seja.
Basta deixar que a ternura, mestra nômade
de almas perdidas, nos crive
e mesmo tarde derive
sonhos do corpo e
ilusões partidas
sorriso da face e
esperanças perdidas.
Ou a utópica vontade de ser
humano.
E deixar por engano
a ternura esquecida em ti
escrito de tempos rancorosos (1990?)




O submundo, o mundo do sub
e subdesenvolvido, e terceiro mundo
o mundo no terceiro milênio
O terceiro mundo subdesenvolvido
envolvido
no advento do terceiro milênio


Aqui me força a rima seca e sem graça

Podridão desce do norte
o norte sempre sem norte
trazendo numa mão a sorte (aí a fatídica rima)
e logicamente na outra a morte

Um corte profundo
e no ecossistema do mundo
jorra um sangue de papel
um sangue de dólar
um sangue de esmola

No norte, um mundo
no sul, submundo
no mundo do norte
restos de vidas, restos nucleares
que no sul, sujos os climas
sujos os ares
que sujem-nos!
Pois, nós. Do norte do mundo?
Nada mais somos
que lixo mudo
ou pior, lixo do mundo

quarta-feira, agosto 31, 2005

domingo, agosto 28, 2005

turvulência

Escrito em outro tempo




Iam eles, pau e água
em turvas cores
navegação...
Serenos, fazendo artes imprecisas
momentâneos, complementando vidas
viam-se não, sentiam-se -
sob o pau: vaus!
E em páramos alhures
locas fundas e quietas cores, as turvas
que brilhavam por fora.
Tão ignóbeis seriam suas atitudes
e mistérios, profundos...
Turvas cores fluidas, que se diziam
incompreensíveis e inefáveis -
tabus?

Não!!! mais, mais, mais...

Vaus claros bonitos,
reboliços
serelepes
bagunceiros.
Ao que logo se via
verdades e mentiras
de tempos idos e corroídos
pelo próprio tempo
indefinido.

quarta-feira, agosto 17, 2005

Livros

(de um canto da estante)


Num canto, de rompante, se levanta Dostoiévski
De vermelha túnica, barbas cerradas e sério,
completo.
No meio era a vez de Guimarães Rosa, todo de branco
com seu cigarrinho na mão e a fumacinha que ia de encontro a Miguilim ou a Miriligus, e o gato ficava de espreita, rijo.
De azul claro, e bem vestido, engravatado, sentado à sua colossal escrivaninha
o olhar escuro de um homem olhava fixo por detrás dos óculos redondos.
Thomas Mann tragava no cigarro um gosto que devia ser bom e do copo de Coca Cola
saia um frescor já naquele tempo, Érica e Klaus deviam espiar pela fresta de suas imaginações e aprender com o pai tão presente e tão distante. A casa era muito grande.
O velho Saramago, e sua literatura maravilhosa, sua forma de moralizar, trazia o amarelinho bege e a simplicidade, os óculos grandes e o terno de sempre. Cabeça grande, corpo esguio e alto, olha de cima como quem observa um bando de seres perdidos a procura do não se sabe o que.
O velho Saramago que só é velho na idade.
Günther Grass de branco, simples, o charuto fedorento, o olho meio puxadinho e as mãos inquietas de artista, os desenhos se descolam do papel e vão se emaranhando por entre as páginas dos livros, saem pelas bordas e se enrolam nos aros e no cabinho dos óculos sem lentes.
Camus vem de vermelho mais denso, olha para nós com o jeito de estar passando, aquele jeito de sempre, gola arrebitada, blusão grosso. Procura sempre pelo túmulo do pai.
Goethe, de linho amarelado, clássico, olha como esfinge, olha como mito, Deus. Goethe é por demais impalpável, falta-nos em linho aquele divã oriental. Vejo-o passeando em Weimar com as mãos para trás, ou de pé, sério, ditando a John mais alguma parte de Dichtung und Wahrheit. (Será que ele ditou Dichtung und Wahrheit a John, acho que sim) Difícil mesmo é aceitá-lo naquele caixão enorme e bonito ao lado de Schiller.
Nietzsche me olha sem idade, sem tempo e sem expressão.
Assim vão se entrosando os meus livros em minha estante,
magistral orquestra que faz desfilar idéias, e mundos.
Tenho que parar por aqui, a noite e o cansaço me comem e os livros querem confabular a história de seus autores.

terça-feira, agosto 09, 2005

meninar

escrito em outro tempo




eu menino num ninho
tu meninas nos gerais das minas
ela menina no meio-fio da esquina
nós meninamos sempre cheios de encantos
vós meninais nas minas dos gerais
elas meninam e acalantos trinam

segunda-feira, agosto 08, 2005

negativas

escrito de tempos rancorosos



eu não vou escrever nada...
nem sobre a sístole petrina
nem sobre a diástole paulina

eu não vou ver nada...
nem as sete cores do mosaico
muito menos a forma do prosaico arco

eu não vou ouvir nada...
nem a displicência da tua voz
nem o barulho de água na foz

eu não vou cheirar nada...
nem o odor do corpo teu
nem quando junto ao meu

eu não vou pegar nada...
nem o abstrato do teu cabelo
tão pouco tuas linhas feitas em pelo

eu não vou provar nada...
nem tua boca que sabe mel
nem o mundo de intragável fel

efeito

escrito num tempo duvidoso



MIS...TURA-SE NO SANGUE
A PINGA
E DEFI NI TI VA MEN TE DILUI-SSSEEEEEE
O TRANSE---I---TO
OS ESPÍRITOS SE SOLTAM, INCORPORIFICAM
E A LUA PRATEADA, DOURASEDEMAIS
SÃO MISTÉRIOS
MISTERIOUSANÇAS

domingo, agosto 07, 2005

Uma casa

Faço minha casa eu mesmo
saiu do papel, ou melhor do computador
Saiu certinha e foi se transformando
e virou minha
Faço não, organizo a casa
organizo o material que vou comprando
areia e brita e cimento e ferro de
bitolas várias, milímetros outros
tijolos de seis furos que vão se aprumando
paredes que vão se erguendo
tem laje que foi se formando
que já está estirada, firmamento do meu castelo
Faço minha casa
que saiu do meu coração, da minha idéia
da minha vontade, com colher de pedreiro,
prumo e nível de mão
E tem terra, e tem pedra e tem água
e a chuva que cai,
e o frio que dói,
e sol que arde
Faço minha casa para servir de pátria, ou mátria
para os meus

quinta-feira, agosto 04, 2005

Uma Flor vermelha, linda-se
e exubera-se - perfeita -
Simetríssima
Frágil, a flor! Que carrega em si minutos
no muito horas, no máximo
dias
Se vento forte não houver.
São as belezas!

segunda-feira, agosto 01, 2005

RESSACA


Não ouso
te pensar!
E o que dirá
te desenhar
na poesia
do dia-a-dia?
Recuso-me a
confabular
e a querer
embrenhar-me
na sanidade
concreta do teu corpo
e na abstração
discreta da tua alma.
Firo-me quando
à toa me refiro a ti
e ferido fico
quando não te referes
ou nem pensas
e nem mesmo olhas
para a estrela
bela
que de presente
te dera

quarta-feira, julho 27, 2005

terça-feira, julho 26, 2005

Da vida de um quase turco 09.2001

Pois é, fui hoje fazer uma compra para a Mirtes e o Helmut quis ir junto, entramos no supermercado e fomos primeiro procurar um CD-ROM da lista telefônica para o Helmut, olhando CD daqui e dali bati o olho num programa de Simulador de Vôo, lembrei-me que há uns dez anos brinquei com uma coisa dessas na firma do Fernando, quando ainda era no Santa Efigênia. E me veio assim uma saudadezinha, melancolia pequenininha de um momento, um lugar, uma vez.
Coisa rápida, mas de repente vi o preço, ah, quinze marcos não são nada, dar uma pilotadinha num avião desses, se não me engano era um Airbuss 330, desses grandões. Outra melancoliazinha, voar, Brasil, parentada, aquele espírito de viagem, mala, tudo. Interessante quanta coisa passa pela cabeça da gente em tão pouco tempo, e o mais interessante ainda é o que não passa. Foram segundos, e já estava tentando levantar vôo, olhar o painel de bordo e ver como era, voar, fazer algumas manobras e finalmente escolher um aeroporto e pousar, ou seja, tentar pousar, várias vezes até que dê certo. Por que não? a gente é criança até o momento em que não nos avisam o contrário, ou melhor , até que alguém diga: pera aí rapaz, você tem filho, é casado e brincando com jogo de computador, mas ninguém nada falou.
Quando vi, Helmut, mesmo cego, já estava querendo manejar o avião e pousar n'algum lugar, quimérico, com certeza. Só dele. E quando vi de novo o CD-ROM já estava dentro do carrinho de compras e partimos à caça da lista telefônica que nem achamos.
Essas últimas semanas foram de sentimentos vários, pensamentos frios e reações quentes, assistia a muitos debates, me irritei com muita besta que trás título de doutor e achei interessante o que artistas e gente dessa sorte pensam e dizem. Mas nesse momento, em que o CD-ROM caía dentro desse carrinho de compras, o barulho que ele fez quando bateu contra a grade me despertou coisas que estavam dormindo talvez há apenas três minutos atrás. Esse baque quase imperceptível me fez lembrar que eu era preto, branco, nunca, pelo menos aqui não. Era sim, preto como o povo brasileiro. Essas coisas às vezes são esquecidas, ainda mais quando não se sai muito de casa e não se vê o olhar que as pessoas jogam em cima da gente. Nesse momento o nome Penharvel virou Penhalver, Ben-al-ver ou qualquer coisa nessa direção, o filho do que cava, o filho do coveiro, o filho do garimpeiro, e isso me levou para quatrocentos anos atrás, algum lugar no oriente médio ou no norte da África, algum avô de turbante, com aquele vestidão e lavando as mãos e os pés cinco vezes por dia, ajoelhando-se em direção de Mecca e louvando o seu Deus, o seu Alá que era o maior. Ou talvez seria uma avó, que, durante as esperas das cinco orações, envolvida em seu véu, deixando apenas os olhos de fora, olhava para o céu e agradecia a seu Deus ou Alá, que era o maior, enquanto misturava a água à farinha branca que seria o pão ázimo, asmo, fininho, assado encima de uma pedra ou dentro do forno de chão, grudado à sua parede.
Esse barulhinho me fez sentir uma coisa que a muito tempo não sentia, ou talvez nunca tenha sentido isso antes. Pelo que bem me lembro já sabia disso, mas sentido ainda não. Trago em mim uma mistura de sangues, me olho no espelho e vejo uma pele embranquecida, pela falta de sol, mas que ainda assim me faz a diferença, não sou branco, uma barba rala, que diz tudo. Um olho amarelado de areias de há muito tempo. Gosto de areia, gosto do vento, mais da areia, tanto é que quando a peneiro para o reboco gosto de senti-la fina correr entre os dedos. São coisas que vêm de longe, de há muito.
Nesse outro momento vejo uma mulher me olhando, lendo meu nome esquisito no cartão de crédito, anotando despistadamente num canto do caixa e tentando perceber o meu rosto muito bem. Me vejo já em outro momento, o ridículo, o olhado, o animal árabe, cuspido, chutado, tido como cínico, culpado, ignorante ou alienado. Curtido. Deve ser a minha cor, deve ser o meu jeito, deve ser o meu modo de falar e a minha pronúncia, o alemão torto, deturpado e gaguejado. Deve ser a minha cultura risonha, o meu sorriso leve no canto esquerdo da boca, uma cagada que dei no mundo, que sempre dou. Talvez seja o fedor da minha boca por ter comido alho demais no meio do feijão. A culpa vem também ás vezes de tanto comer milho. Comer azeitona, quibe, esfirras. Nada de batatas, nem linguiças, micro-ondas, essa coisas que os civilizados comem. No fundo é a alcachofra ou o quiabo.
E no terceiro momento devolvo o CD-ROM ao seu lugar, como pude ser tão tolo, a menos de três semanas aconteceu uma coisa daquela e eu com essa cara de turco, morroquino ou sei lá querendo comprar um simulador de vôo para o computador num supermercado alemão que tem mais de mil olhos. Helmut que não quis abrir mão do seu já começado sonho. Queria voar. Mas como já tinha voado acho que bem mais do que ele, nesse momento, convenci-o do deixar estar. Não vale a pena. Deixe pra lá. Pois, aqui o que vale é aquilo que parecemos. Ser significa muito pouca coisa.

segunda-feira, julho 25, 2005

Outra pequena conversa, com Glaura 03.2003

Ah!!!!!!!!! me escapou, o fio, a meada. A meada está ainda a martelar o fio nem sei, acho? Tutaméia me prova da ignorância da minha idade e da Naivität do meu olhar. É difícil, gente!!! Mas espera, que já fecho as mãos de novo, fecho os olhos e me dê um tempo, uns dias umas músicas que são o tempo que passa no meio da cerveja. A primavera já vem, e com elas, as tulipas. Tulipas! Esses olhos... de gatos, O Miriligus talvez me conta, mas só talvez, é que o jardim, mas ainda eis que é inverno, frio, e nas campinas, tem que ser verde. Preciso de seu tempo e de fechar os olhos por outras vezes.
Mas acho que te contarei talvez o oposto. Ao Miriligus não lhe dê nome, é melhor. Os nomes encolhem, prendem, tolhem, é assim que se escreve isso?
Será que hei de captar esse movimento? Mas tive a impressão que sim, mas provavelmente não poderei te ajudar apesar de estar na quina e ter sentido o sentido esbarrar no ar que roçava minhas orelhas, ou era o cheiro, no nariz? Dê-me o tempo para isso, pra eu brincar com isso, se não te mando o que é e vai o que não é.

domingo, julho 24, 2005

De uma pequena conversa com Glaura

Mas o que me afronta é o seguinte, na tradução desse texto em alemão, o tradutor traduz assim essa frase: Todo mundo está inseguro sobre aquilo que ele afirma, Die ganze Welt ist sich unsicher über das, was er behalptet. Há uma diferença, pois, "Todo o mundo tem a incerteza do que afirma" Daí o nó na minha cabeça, claro que a frase está ligada ao personagem, mas entendi que, estando a ele ligada, o escritor teve a competência de generalizar a questão inversamente, pois que Drijimiro tinha segurança com aquilo que emanava.
Penso que ao tradutor fugiu essa nuance, mas perdoemo-lo ( e eu hein!), ele fez um ótimo trabalho com as traduções para o alemão, o Curt Meyer-Clason.
Também o Lá, me era lógico, é o espaço poético e até bíblico, que pode ser interpretado como um tempo especial. Penso que entendi esse conto. A chave esta na sobrinha do padre, que deve ter despertado algum sentimento escondido ou suprimido. Lembremos que em certa parte da vida ele perdeu o dom de ver o belo, as coisas belas perderam o brilho, a natureza desapareceu por causa dos negócios. A pergunta é, talvez, impossível de ser respondida, simplesmente pelo fato de que ele não a respondeu. Não sabemos o que significa a sobrinha do padre, a releixa para segar, que era feia de sorte. A morte? Seria fácil!
Cá pra nós, será que o choque da feiúra fez com que ele acordasse do sono e da névoa em que passou a viver, - que não o deixava enxergar as coisas belas, a natureza passou a não representar mais nada, lembre que em dois lugares no texto, no início e no fim, Guimarães Rosa descreve uma paisagem bem brilhante, o azul das águas das lavadeiras etc.. etc... - Será que essa "feiúra" despertou novamente o belo, o idílico, o lá? ... da infância...
Pra agora estou muito inseguro do que afirmo, ou melhor, proponho.
A quem me fala que vai ler o Grande Sertão, Veredas pela primeira vez, o que não é o seu caso, dou uma sugestão. Pense em uma floresta alta e escura, com rios fundos e cheios de piranhas, jacarés, sucuris. No chão da floresta as onças, cascavéis, aranhas e escorpiões. Pois é. A floresta é linda, cheia de vida e beleza monumentais, mas a noite é uma barulheira enorme, o som do silêncio é agressivo, o perigo é da vida, pois que, viver é perigoso, Há que se jogar vivo através dessa floresta e atravessá-la, primeiro aos trancos e barrancos, como se diz, andando às cegas, tateando, de quatro, de tudo enquanto é jeito, catando cavaco. E depois de umas setenta ou cem páginas dessa floresta, no corpo vão cicatrizando as feridas, que se tornam marcas e que pelo corpo são incorporadas. Perdemos a inclinação de macacos com o tempo e as páginas. Levantamos então a cabeça e nos damos conta de estarmos em um "lugar" lindo em que, mesmo sabendo dos perigos que pululam, existem também as bromélias, as orquídeas e os cheiros maravilhosos. Ou seja, Depois da escuridão e do total estranhamento vem a recompensa que é a beleza. É preciso um certo calejamento para se ver as belezas do sertão e de sua vida, temos que aprender o que é sertão.
Um abraço forte e felicidades com o Proust.

Um dia em 2004

Brecht, Brecht!


E aquela casinha, na beira de um lago, na qual subia pela chaminé a branca fumacinha?
Para alguns falo que o bom da fumacinha era a amada...

sábado, julho 23, 2005

Qual é a idade de Nietzsche, qual é sua envergadura, de noite tremo, sinto frio, os olhos de Nietzsche me beobachten, me crivam sem lágrimas e sem rancores.
Tenho medo e o escuro nos absorve